Há coisas que, por muito que ouça, por muito que veja, me deixam sempre com um riso difícil de conter, com aquele sensação de que vou explodir em gargalhadas e lágrimas. Especialmente quando tenho, nada mais, nada menos, que o lobo do mar Gulbenkian ao meu lado. Uma tia e sua respectiva filha (reparem no inicio desta frase. Se traduzissem isto para um inglês, de certo ele perguntaria: mas não devia ser tia e sua respectiva sobrinha? Devia. Bem vindo a Portugal) procuravam, espalhafatosamente, uns livros. Primeiro a filha chega ao balcão e pede livros da Agatha Christie, e quando eu saio do balcão para indicar a respectiva secção, ela vira as costas e sai da loja para falar com umas pessoas. Eu fiquei parado junto à secção, estupefacto, enquanto o Gulbenkian já estava com ar de quem queria rir. Lá veio ela, lá escolheu os livros e pediu à mãe para pagar. A mãe tinha ar de quem era irmã dela, tanta a plástica. Quase que posso jurar que cada vez que ela sorria, só mexia o lábio esquerdo e levantava ao mesmo tempo a perna direita. Se fizesse um som tipo “GHHHHHHZ COMO TE LLAMAS? QUIERO SER COMO TU!” eu tentava por lhe uma moeda na boca a ver se saía um ovo com brinde. Antes de pagar atendeu o telefone e desatou aos berros, a dizer como ficava louca porque ia jogar o Chelsea. Depois viu um livro de cavalos e disse que estava lá o cavalo dela. Mas ela não estava porque estava fora. Quando finalmente se lembrou de pagar, entregou o seu VISA, mas esta não passava. Ela disse que era normal, porque, atenção, “É O MEU CARTÃO SUBRESSALIENTE!”. E a esta altura já eu pedia encarecidamente ao Gulbenkian para se ausentar para o Back Office porque se olhássemos um para o outro alguém ia perder o controlo.
Depois há clientes que enganam. Veja-se o caso da adolescente com ar cândido, com todo o aspecto de quem acabou de largar as saias da mãe, e que se passeia junto à secção de livros juvenis. Cara de quem não tem mais de treze anos, roupa de quem não tem mais que quinze, vê os livros descansadamente. Quando se dirige para o balcão, penso que lá vem mais uma adolescente perdida que não sabe onde estão os livros do Diário de Sofia ou do Diário da Princesa. Mas o que ela diz é o seguinte: “Boa tarde, tem o MANUAL DA BRUXA SATANICA?”. Ora bem. Nem mais. “O Manual da Bruxa Satânica.” Deve ser um clássico da literatura juvenil que desconheço. É que, reparem, não é só o facto de ela querer o manual da Bruxa, ela quer o manual da Bruxa que é Satânica. Podia ser uma bruxa cristã, ou hindu, porque não? Mas tinha logo de ser Satânica. A juventude está perdida. Depois de verem a Floribella vão fazer rituais satânicos para o quarto.
A secção do esoterismo atrai realmente muita gente. Num destes dias tentei ir buscar um livro ao esoterismo, uma secção que não tem mais de um metro de largura, e estavam cinco pessoas a tentar ver o que por lá havia. Seis, a contar comigo. Fui empurrado e acotovelado por pessoal feio e vestido de preto enquanto via pentagramas. Não me acontecia nada parecido desde o concerto de Slipknot.
Um senhor chega ao balcão e diz o seguinte: “Boa tarde, vinha aqui há procura de um livro que ajudasse ou ensinasse a escrever. É tenho lá em casa um miúdo, que por acaso é meu filho, que tem dificuldades!”. Por acaso é filho dele. Que curioso. O pessoal geralmente tem miúdos em casa mas é para outras coisas. Olhem a casa de Elvas. Também podiam dizer que tinham uns miúdos em casa. Lá encontrei um livro para o caro senhor, e, depois de alguma conversa, falámos sobre o que ajudaria à escrita. Ele defendia a prática. Eu defendia que, além da prática, a leitura é essencial. Até que ele diz o seguinte: “Ler livros para depois ir escrever é a mesma coisa que ver futebol na televisão e depois ir jogar. Não serve de nada!”. É aqui que eu não digo mais nada, apenas fico a ouvir na esperança que surjam mais pérolas como esta.
Há coisas que me fazem alguma confusão. Astrologia para bebés é uma delas. Duas amigas que procuravam o livro comentavam que “aquilo é mesmo igualzinho ao bebé da Maria! O que diz lá é como ele é e como faz!”. Estavam maravilhadas. Esse livro é uma boa ideia. É só copiar o que os outros dizem sobre os adultos e acrescentar um horóscopo tipo: “segunda-feira o seu bebé vai fazer chichi e chorar quando tem fome. No plano das relações vai dar-se bem consigo se for boa para ele. Já na parte da noite, vai acordar quando tiver a fralda suja.”. E as pessoas compram… E vão mais além, compram Astrologia para Animais. “Deixa-me cá ver se é hoje que o Rex me mija o sofá…”. Com livros assim, o mundo é um local melhor.
Depois há clientes que enganam. Veja-se o caso da adolescente com ar cândido, com todo o aspecto de quem acabou de largar as saias da mãe, e que se passeia junto à secção de livros juvenis. Cara de quem não tem mais de treze anos, roupa de quem não tem mais que quinze, vê os livros descansadamente. Quando se dirige para o balcão, penso que lá vem mais uma adolescente perdida que não sabe onde estão os livros do Diário de Sofia ou do Diário da Princesa. Mas o que ela diz é o seguinte: “Boa tarde, tem o MANUAL DA BRUXA SATANICA?”. Ora bem. Nem mais. “O Manual da Bruxa Satânica.” Deve ser um clássico da literatura juvenil que desconheço. É que, reparem, não é só o facto de ela querer o manual da Bruxa, ela quer o manual da Bruxa que é Satânica. Podia ser uma bruxa cristã, ou hindu, porque não? Mas tinha logo de ser Satânica. A juventude está perdida. Depois de verem a Floribella vão fazer rituais satânicos para o quarto.
A secção do esoterismo atrai realmente muita gente. Num destes dias tentei ir buscar um livro ao esoterismo, uma secção que não tem mais de um metro de largura, e estavam cinco pessoas a tentar ver o que por lá havia. Seis, a contar comigo. Fui empurrado e acotovelado por pessoal feio e vestido de preto enquanto via pentagramas. Não me acontecia nada parecido desde o concerto de Slipknot.
Um senhor chega ao balcão e diz o seguinte: “Boa tarde, vinha aqui há procura de um livro que ajudasse ou ensinasse a escrever. É tenho lá em casa um miúdo, que por acaso é meu filho, que tem dificuldades!”. Por acaso é filho dele. Que curioso. O pessoal geralmente tem miúdos em casa mas é para outras coisas. Olhem a casa de Elvas. Também podiam dizer que tinham uns miúdos em casa. Lá encontrei um livro para o caro senhor, e, depois de alguma conversa, falámos sobre o que ajudaria à escrita. Ele defendia a prática. Eu defendia que, além da prática, a leitura é essencial. Até que ele diz o seguinte: “Ler livros para depois ir escrever é a mesma coisa que ver futebol na televisão e depois ir jogar. Não serve de nada!”. É aqui que eu não digo mais nada, apenas fico a ouvir na esperança que surjam mais pérolas como esta.
Há coisas que me fazem alguma confusão. Astrologia para bebés é uma delas. Duas amigas que procuravam o livro comentavam que “aquilo é mesmo igualzinho ao bebé da Maria! O que diz lá é como ele é e como faz!”. Estavam maravilhadas. Esse livro é uma boa ideia. É só copiar o que os outros dizem sobre os adultos e acrescentar um horóscopo tipo: “segunda-feira o seu bebé vai fazer chichi e chorar quando tem fome. No plano das relações vai dar-se bem consigo se for boa para ele. Já na parte da noite, vai acordar quando tiver a fralda suja.”. E as pessoas compram… E vão mais além, compram Astrologia para Animais. “Deixa-me cá ver se é hoje que o Rex me mija o sofá…”. Com livros assim, o mundo é um local melhor.