Há clientes chatos. Não há outra forma de dizer, e peço desculpa se estou a ofender alguém. Imaginem: estou eu a tentar aturar um cliente obcecado por esoterismos e dietas fantasmas (é mesmo o termo técnico, porque ninguém as vê) quando uma cliente, que estava a ver livros de culinária a um metro de nós, ouve a conversa. O cliente dizia-me que queria livros técnicos de nutrição e NÃO de dietas. A cliente aparentemente só ouviu a parte das dietas, então, para espanto de todos, enquanto ia procurando livros para ela, ia interrompendo a minha conversa com o cliente, dizendo: “Tem aqui um livro de dietas. Tem aqui mais um livro de dietas. Tem aqui ainda outro livro de dietas” enquanto ia atirando os livros para junto de nós. Isto era especialmente querido da parte dela, especialmente porque ela fazia isto cada vez que eu dizia: “Não, não temos nada” ela respondia com um “Olhe que tem aqui mais um livro de dietas” e atirava-o para junto de nós. Se quisesse ajuda contratava um macaco.
Hoje de manhã atendi um casal na casa dos 60 anos. Era muito divertido. Ela era irritante. Ele berrava com ela. Ela ficava mais irritante. Ele batia-lhe e mandava-a calar e ir se embora. O amor é lindo naquelas idades. Queriam livros sobre Portugal, em Inglês. Dei-lhes duas alternativas. Um livro de 16€ e um de 35€. Começaram por ver o de 35€. Acharam muito melhor. Texto, fotos, tudo melhor. “Uma classe!” disse ela. “Está calada porra!” disse ele. Depois viram o de 16€. Acharam fraquinho. Depois perguntaram os preços. E, miraculosamente, o de 16€ ganhou uma qualidade brutal num espaço de 1 minuto: “Ah sim, pois, este de 16€, realmente, é de classe, tem qualidade, e tem pouco texto, eles também não querem ler aquela chacha do que é ser português!” ao que o marido respondeu: “Cala-te porra!” e bateu-lhe mais uma vez. Depois tentámos fazer uma transacção comercial normal, mas era complicado, porque cada vez que eu falava, o cliente não ouvia bem, a mulher repetia, e ele batia-lhe e mandava-a embora. E ela ria. Levaram quatro exemplares, para mandar para os Estados Unidos. O acto do pagamento foi complicado. Ele queria usar o Visa. Ela queria que ele usasse o cartão Multibanco. Mandou a logo dar uma volta, acompanhando a frase simpática com um doce cachaço no braço. E ela riu-se. O pior de tudo (e, consequentemente, o mais engraçado) é que eles voltaram atrás para comprar outro livro e fizeram o mesmo circo novamente.
Quando é que tenho férias outra vez?