terça-feira, setembro 12, 2006

Fresco e Fofo

Estou, sinceramente, a pensar em mudar o título do Blog. Estava eu perto do balcão, o Gulbenkian no Back Office e o Mestre algures perdido na loja, de lista na mão, tentando fazer mais uma devolução, quando um senhor, aparentemente insuspeito, se aproxima de mim e me aborda calmamente, com um bom dia praticamente inaudível. Retorqui (como manda a Norma do Bom Livreiro, capítulo III, parágrafo 8, logo a seguir à secção sobre o uso ou não de roupa interior justa e florida) e ele, antes de falar novamente, aproximou-se mais de mim. Ora bem, eu, apesar de não ser propriamente a pessoa mais afável que conhecem, ainda dou uns bons 50-70cm de distancia de tolerância para quando uma pessoa fala comigo. Ora, este senhor, aproximou-se perigosamente dos 20cm, deixando-me, naturalmente, perturbado. Mas, nada me poderia preparar para o que vinha a seguir: “Tem aí daqueles livros de higiene, pronto, higiene, pronto, higiene da vagina, assim da mulher”. Ponto número 1: quando um cliente intercala a palavra pronto entre cada frase é caso para nos preocuparmos. Ponto número 2: Ainda bem que é da vagina da mulher. Se fosse de outro ser qualquer seria bastante pior. Eu perguntei, incrédulo, “higiene da mulher?”, ao que ele respondeu, ainda a falar mais baixo: “Sim, pronto, quer-se dizer, higiene da vagina da mulher, assim para fazer uns servicinhos, o habitual”. Servicinhos? Secalhar ia abrir um bordel. Habitual? Lamento desiludi-lo, mas nada do que o senhor diz é habitual. Indiquei-lhe a zona da saúde feminina, sem saber bem o que fazer. Não conheço nenhum livro que fosse de encontro ao que ele desejava, especialmente porque o livro “Como Manter a Passarinha Jeitosa e Afins” estava esgotado. Um quarto de hora mais tarde, encontrei-o a ver um livro da Paula Bobone. Pode ser que, com boas maneiras, ninguém repare no cheiro. Sendo assim, depois destes últimos episódios, estou a pensar em mudar o título do blog para “O Ginecologista”. Parece-me apropriado.
Há clientes chatos. Não há outra forma de dizer, e peço desculpa se estou a ofender alguém. Imaginem: estou eu a tentar aturar um cliente obcecado por esoterismos e dietas fantasmas (é mesmo o termo técnico, porque ninguém as vê) quando uma cliente, que estava a ver livros de culinária a um metro de nós, ouve a conversa. O cliente dizia-me que queria livros técnicos de nutrição e NÃO de dietas. A cliente aparentemente só ouviu a parte das dietas, então, para espanto de todos, enquanto ia procurando livros para ela, ia interrompendo a minha conversa com o cliente, dizendo: “Tem aqui um livro de dietas. Tem aqui mais um livro de dietas. Tem aqui ainda outro livro de dietas” enquanto ia atirando os livros para junto de nós. Isto era especialmente querido da parte dela, especialmente porque ela fazia isto cada vez que eu dizia: “Não, não temos nada” ela respondia com um “Olhe que tem aqui mais um livro de dietas” e atirava-o para junto de nós. Se quisesse ajuda contratava um macaco.
Hoje de manhã atendi um casal na casa dos 60 anos. Era muito divertido. Ela era irritante. Ele berrava com ela. Ela ficava mais irritante. Ele batia-lhe e mandava-a calar e ir se embora. O amor é lindo naquelas idades. Queriam livros sobre Portugal, em Inglês. Dei-lhes duas alternativas. Um livro de 16€ e um de 35€. Começaram por ver o de 35€. Acharam muito melhor. Texto, fotos, tudo melhor. “Uma classe!” disse ela. “Está calada porra!” disse ele. Depois viram o de 16€. Acharam fraquinho. Depois perguntaram os preços. E, miraculosamente, o de 16€ ganhou uma qualidade brutal num espaço de 1 minuto: “Ah sim, pois, este de 16€, realmente, é de classe, tem qualidade, e tem pouco texto, eles também não querem ler aquela chacha do que é ser português!” ao que o marido respondeu: “Cala-te porra!” e bateu-lhe mais uma vez. Depois tentámos fazer uma transacção comercial normal, mas era complicado, porque cada vez que eu falava, o cliente não ouvia bem, a mulher repetia, e ele batia-lhe e mandava-a embora. E ela ria. Levaram quatro exemplares, para mandar para os Estados Unidos. O acto do pagamento foi complicado. Ele queria usar o Visa. Ela queria que ele usasse o cartão Multibanco. Mandou a logo dar uma volta, acompanhando a frase simpática com um doce cachaço no braço. E ela riu-se. O pior de tudo (e, consequentemente, o mais engraçado) é que eles voltaram atrás para comprar outro livro e fizeram o mesmo circo novamente.
Quando é que tenho férias outra vez?

terça-feira, agosto 29, 2006

Peito de Cristo!

De regresso ao trabalho, tenho passado a maior parte do tempo na companhia do Mestre. E, para minha infelicidade, tenho reparado que ele é o maior iman de personagens que existe à face da terra. E eu pensava que só aconteciam coisas estranhas quando estava com o Gulbenkian no balcão... Numa manhã que passou, estávamos os dois no balcão, cada um ocupado no seu posto de trabalho quando um senhor chega perto do balcão, pára perto dele e diz: "Tem o livro... VAGINA?". O Mestre, reconhecido conhecedor da intimidade feminina, prontamente corrigiu o cliente, dizendo-lhe que o livro que procurava seria, provavelmente, "A História de V" das Edições ASA. "VAGINA, o livro chama-se VAGINA, é o que quero", respondeu o cliente e mal o Mestre tentou explicar-lhe que não temos um livro com esse título, o cliente diz imediatamente: "VAGINA.". Simplesmente "VAGINA.". Lá foi o Mestre levar o cliente até ao livro, que, obviamente, era o livro que ele tinha sugerido. "VAGINA." e foi-se embora.
Geralmente, quando partilhamos o balcão, esse espaço sagrado da loja, o Mestre fica encarregue da caixa, e eu, na mais pura inutilidade, apenas sirvo para abrir os sacos para que ele coloque lá os livros. Foi numa dessas ocasiões que um cliente, munido daquele magnífico sentido de humor que os clientes normalmente têm, diz: "Ena... É 2 em 1". A reacção da plateia foi o silêncio total, acompanhado de uma expressão de pesar profundo. Somos, como já referi, um público díficil.
Num daqueles períodos em que me encontrava sozinho na loja entrou um padre, que prontamente se dirigiu à zona dos mapas. Procurou, procurou, e, finalmente lá encontrou um mapa que parecia agradar-lhe. Abriu o mapa em cima da mesa dos álbums e ficou ali, durante largos minutos, a estudar o mapa. Eu acho que não temos mapas com o caminho para a salvação, mas eu não sou de fiar. Parece que o mapa estava de acordo com as rígidas normas católicas (ao que parece nunca tinha praticado um aborto ou feito sexo com preservativo) e o Sr. Padre trouxe-o até ao balcão para pagar. Pensei em fazer-lhe uma ou duas perguntas, mas tinha medo que ele me condenasse à eternidade no inferno. E eu teria que lhe dizer oh Sr. Padre, mas eu já trabalho numa livraria num centro comercial. Ele provavelmente choraria e absolviria-me de todos os meus pecados.
Já no Domingo de manhã, esse dia sagrado das personagens, num dos dias mais parados do ano, estava o Mestre a tentar resolver a questão dos pedidos de cliente e eu a beber Coca-Cola à porta do back-office, quando ouço, vindo da porta: "OH JOVEM! OH, JOVEM!". Se há coisa que eu aprendi, e que deveria ser ensinado a qualquer pessoa que trabalhe no atendimento ao público, é que se aparecer alguém à porta a gritar "OH JOVEM!" repetidamente é mau sinal. Fica o aviso. Bom, pousei a Coca-Cola e fiquei a ver o que se iria passar. O cliente, se assim se pode chamar, tinha um blazer azul, óculos fundo de garrafa, trazia uma pasta na mão esquerda e um cartão identificador no lado direito do blazer, escrito à mão. Ele entrou na loja e já vinha a falar desde lá de fora. Devo vos dizer que os primeiros dois minutos de conversa dele, a única coisa que conseguimos entender foi "livros medicinais", "gasto mil contos em livros", "plantas medicinais" e "oh jovem". O cliente tinha a voz completamente anasalada, dando toda uma nova dimensão à palavra "fanhoso". Já estávamos a achar aquilo altamente estranho, quando ele começa a dizer: "Eu sou o Dr. Astrólogo! Está aqui, está aqui!" e aponta para o identificador, escrito à mão, onde dizia, lá está, Dr. Astrólogo. "Mas você também é astrólogo, e o seu colega também! Você é astrólogo!" apontando para o Mestre. O Mestre é reverenciado por várias personagens ligadas ao sobrenatural e oculto, por isso eu não estava nada surpreendido. Mas o cliente continuou: "Eu sou astrólogo, quer ver?" e eu ai tive medo. Olha se ele diz que o Sporting ia ser campeão este ano? Eu entrava em coma já ali. Mas não. Foi muito pior. "Tem Bíblias? Mas eu quero Bíblias cristãs, nada de Bíblias de Jeovás!" e enquanto diz isto, põe a mão sobre o baixo ventre e encolhe a barriga de uma forma quase desumana para dentro, salientando brutalmente a caixa toráxica. "Sou astrólogo, está a ver? PEITO DE CRISTO! PEITO DE CRISTO ESTÁ A VER?!" dizia ele enquanto apontava para o ventre e caixa toráxica. "PEITO DE CRISTO!" repetia, enquanto o Mestre tentava a todo o custo tentar perceber em que dimensão é que ele se encontrava e eu basicamente tentava concentrar-me para não rir. Se estivesse com o Gulbenkian, a esta altura ja estávamos a rebolar a rir. O cliente continuou: "Este é o PEITO DE CRISTO! e você é o S. PEDRO!!!" diz ele, apontando para o Mestre. S. Pedro... Nada mau. Eu já estava ansioso por saber quem eu era. Ele não disse nada. Não tenho pinta de apóstolo. "Sou astrólogo e é por saber certas coisas e por não acreditar na igreja que eles dizem que sou maluco. É por isso que estou num sanatório!". A esta altura já ele nem queria saber de livros de plantas medicinais nem nada que se pareça. Depois, sem parar a conversa do sanatório, dirigiu-se para fora da loja, sempre a falar e a gesticular, enquanto desaparecia no horizonte. Peito de Cristo... O mais curioso é que até se assemelhava à cena da crucificação. Nunca mais vamos ser os mesmos. Até porque sempre que chover vou culpar o Mestre por isso.

segunda-feira, julho 31, 2006

Anomalias

E eis que sem qualquer tipo de aviso encontro-me novamente de férias. E tudo graças ao nosso filantropo preferido, o verdadeiro senhor da escrita indecifrável, Gulbenkian. O grande Gulbenkian trocou as férias comigo, para eu poder passar as férias em família. Este homem é um senhor, este homem é um mister. Ele ajuda sempre que pode. Vejam este exemplo que eu creio ser paradigmático da sua boa vontade. Uma personagem que tem uma biografia recentemente editada (vou só dizer que o nome começa em L e acaba em S e tem as letras ili Caneça dispostas de forma perfeitamente aleatória no meio) foi, como já é hábito, dar uma espreitadela à livraria para ver se o seu livro estaria a vender bem. Ora, desde o primeiro minuto, Gulbenkian, sempre zeloso, achou que o livro representava um desperdício de espaço na loja. Então, à primeira oportunidade, despachou o livro para o back office, no sentido de encontrar espaço para a torrente imparável de novidades. É uma prática comum, o livro nem sequer estava a vender. Espantada por não ver nenhum livro, a personagem em causa dirigiu-se ao balcão e perguntou onde parava a sua biografia. Gulbenkian, fingindo que não sabia de nada, perguntou o nome do autor. A personagem ficou ruborizada, como se aquela pergunta , como se fosse um atentado à sua dignidade e fama. Verdade seja dita, ela é apenas a biografada, não é, efectivamente, a autora. Lá surgiu a resposta e Gulbenkian, eficiente como sempre, deu rapidamente com o livro na base de dados. Mas nada podia faser prever o que viria a seguir. Gulbenkian disse à senhora que tínhamos vendido todas as unidades do seu livro. Ela ficou radiante, pensou logo em pedir ao seu editor mais exemplares. Ele desaconselhou-a, explicando que isso seria tratado centralmente. E lá partiu ela, feliz da vida. E lá foi o Gulbenkian, colocar dois ou três livros na área das biografias. O resto continua lá dentro. Mais uma boa acção de Gulbenkian. Um dia o Cosmos que ele tanto maldiz irá compensá-lo por tudo. Já alguns clientes não conseguem conter os seus sentimentos em relação ao livro da senhora. Temos um caso que ilustra bem esta situação. Duas senhoras, perto dos 65 anos de idade, passeavam despreocupadamente pela loja. Ao ver o livro em questão, a senhora pára, olha o cuidadosamente e em seguida levanta-o bem alto, dizendo para a sua amiga: "Já-me vistes bem isto? Olha só o desperdício de árvores que aqui está!". Velhinhas mas acutilantes. Tenho curiosidade em saber o que pensam do livro Arlinda Mestre, a senhora que é jovem e devora a vida, nas palavras dela. Ouvi dizer que a vida é indigesta, secalhar é por isso que ela é assim. Não sei, não sou nutricionista.
Nestas duas semanas vi-me obrigado violentamente a desempenhar funções para as quais não sou nem remunerado nem formado. Numa manhã aparentemente normal, deparo-me com um Multibanco fora de serviço. Tento ver o que se passa, mas surge sempre uma malfadada anomalia, a 4S8. Sem qualquer alternativa, lanço-me ao telefone e ligo para a assistência. Logo atende um homem prestável que parece interessadíssimo em ajudar-nos. O problema surge quando digo que a anomalia é a 4S8. "4S8? Não, não pode ser, isso não existe." Verifiquei, voltei a verificar, pedi a opinião de Mestre, o nosso colega matemático, perito em números, e ele confirmou. Aquilo, meus amigos, era um S. "Não pode ser! Não será 440?". 4-S-8, disse eu. Quanto muito seria 458, disse, mas 440 nunca. "Não, não pode ser". Depois de muita insistência, lá conseguiu perceber que a ideia era mesmo ir lá alguém à loja, e aí logo veriam o que seria. "Então vou mandar aí alguém, a anomalia é a 440 não é? Ah, 4-S-8. Pois, pois, então eu mando um técnico, para arranjar a anomalia 460. Ah, sim, sim 4S8, pois." Eu acho que ele estava a tentar hipnotizar-me por telefone ou coisa que o valha: "Não há qualquer anomalia...". Depois demonstrou o seu domínio da língua portuguesa: "Sim, bem, em 24 horas geralmente temos a resolu... A resolvi... A relosu... Pronto, isso resolve-se." Nem mais, quem fala assim não é gago! Agora, de férias, não vou estar lá quando o problema for resolvido. Há que ressalvar o facto de passado 72 horas o problema ainda persistir. Secalhar o 4-S-8 é uma anomalia tramada. "Olhe, é da assistência? É só para dizer que temos uma anomalia, o 4S8. O quê, o terminal vai autodestruir-se dentro de 5 minutos? Ah ok, está bem então." O nosso terminal é tramado, inventa anomalias.
Boas férias!

segunda-feira, julho 24, 2006

Boas Acções

Num regresso de férias que não pode ser considerado algo menor que heróico, volto para deparar-me com as adversidades e incidências rocambolescas do costume. Está tudo na mesma, basicamente. Tenho entrado 30 minutos antes da loja abrir, para tratar dos mais variados assuntos burocráticos, nomeadamente a “verificação do meu e-mail”, o protocolar “deixa lá ver o que diz A Bola hoje” e o administrativamente entediante “que CDs novos é que há aí para comprar”. Bom, é um trabalho árduo, tenho de admitir.
O problema é que, para além dos aromáticos entregadores de mercadoria, surgem alguns telefonemas que atrasam o bom funcionamento da livraria. Hoje, por exemplo, ainda faltavam 20 minutos para a loja abrir quando liga uma senhora que queria um livro de Virgílio Ferreira. Livro esse que, para não variar, encontrava se esgotado. Depois de recuperar da desilusão causada pela não disponibilidade do seu livro, a cliente diz o seguinte: “Olhe, e podia dar-me só uma informação…”. Pensei logo que queria saber o Continente estava aberto ou qualquer uma das outras perguntas do costume, mas não: “Olhe, por acaso conhece, ou sabe se está aberta, uma loja chamada FNAC, F-N-A-C, FNAC, conhece? Acho que também vende livros…”. Não amiga, eles vendem enchidos e dos bons, aquilo é qualidade… Depois quis o telefone da FNAC, e eu, num esforço desesperado para me soltar das suas amarras, dei-o de bom grado. Fiz a minha boa acção do dia...
Já diversas vezes mencionei aqui toda a problemática que envolve os pedidos de cliente. Verdade seja dita, a minha letra não é famosa. A do Santo também não é das melhores. Mas, a do Gulbenkian bate todos os recordes. A pessoa responsável pelos pedidos (vamos chamar-lhe, para protecção da sua identidade, “Noiva de Portugal”) queixa-se constantemente, e também muitas vezes, com toda a razão, da nossa letra. Nas suas palavras, a nossa “letra é má, mas a do Gulbenkian extravasa o razoável”. O meu problema em particular são os números. Entre quatros e noves, setes e uns, venha o diabo e escolha. Também, não vejo qual é o problema. Vão tentando todos os números até acertarem, as possibilidades não são infinitas. Mas, pelo menos, preencho na totalidade os dados absolutamente necessários para o bom desempenho de quem faz os pedidos. O Gulbenkian, para além da sua letra, também tem graves dificuldades no preenchimento das encomendas. Recentemente, apareceu um papel de encomenda com a letra dele (sem estar datado ou assinado) que dizia apenas México Insight Guide. Sem nome de cliente, sem número de telefone. Prevejo que, brevemente, Gulbenkian comece a deixar pedidos apenas preenchido com a palavra “LIVRO”. Apenas “LIVRO”. Para quê perder tempo com assuntos triviais? O que é a pessoa quer, afinal de contas? Um “LIVRO”, apenas e só um “LIVRO”. O resto a Noiva de Portugal que descubra. Para terem uma melhor noção da dimensão do problema do Gulbenkian, na semana passada, tive de me deslocar juntamente com ele, em mais uma boa acção, à Universidade que frequenta, numa viagem que somente posso apelidar de alucinante, para recuperar um teste de Filosofia. Digamos que o conceito de “redução” aquando de uma travagem é totalmente desconhecido para ele. Sobrevivemos. É o que importa. Gulbenkian, o primeiro filósofo-baixista-voluntário-livreiro-escritor (mas certamente não o último, tenho certeza que ele deixará um vasto legado) do Universo, recebeu, quando se encontrava na praia a vislumbrar a sombra causada pelo seu pêlo corporal na areia, um telefonema da sua professora. Esta disse-lhe que nem soletrando conseguia perceber o que estava lá escrito. Quando vi o exame, dei-lhe toda a razão. Nem o próprio Gulbenkian percebia o que estava lá escrito. E reparem, o homem tinha feito um rascunho antes. Mais valia ter entregado o rascunho. Como é que posso descrever a letra dele? Gostaria de ter um paleógrafo disponível para me ajudar neste caso, porque é deveras complexo. Ora bem, imaginem uma pessoa normal a tentar escrever, com a mão esquerda (no caso de ser dextro) enquanto se deslocava num jipe sobre as dunas, de olhos vendados. É mais ou menos esse o resultado final. Uns hieróglifos imperceptíveis, apenas ao alcance dos predestinados. Consta (e estou a tentar ao máximo trazer provas disso) que, quando Gulbenkian fez os seus hieróglifos naquele teste de filosofia, abriu-se um portal no Egipto, capaz de nos fazer viajar através do espaço e do tempo. É verídico.
Dêem graças a Deus de o blog não ser manuscrito.

sexta-feira, junho 30, 2006

C'est Les Vacances

Entrei de férias ontem, mas senti-me pressionado para vir cá deixar mais uma tese sobre a vida rural dos vendedores de cautelas em Celourico-da-Beira. Mas, como não fui capaz de urdir uma tese com pés e cabeça (o costume, portanto), deixo-vos com mais acontecimentos da livraria.
E se há acontecimento comum é o cliente que se encontra num dos maiores dilemas da humanidade (está actualmente classificado entre a discussão do aborto e da eutanásia) que é o “entro na loja com o carrinho das compras ou deixo-o lá fora, correndo o risco de ficar sem tomates”. Esta situação ameniza-se quando há companhia. Fica alguém a guardar as compras enquanto o outro vai e trata dos seus assuntos da livraria. E, foi mesmo ontem que, enquanto arrumava umas prateleiras na companhia do grande Gulbenkian, esse verdadeiro descende dos filósofos gregos (em pensamento e quantidade de pelo), surgiu um casal à procura do livro que optou pela táctica do “mulher fica com as compras, homem parte em busca do livro”. É uma táctica arrojada, poucas vezes executada. O senhor em causa não tinha muito jeito para encontrar livros, então a senhora, experiente, gritava lá de fora: “ESQUERDA, MAIS PARA CIMA, DIREITA, MAIS, MAIS PARA BAIXO!”. O Gulbenkian, mordaz e oportuno como sempre, disse que pareciam os saudosos Jogos Sem Fronteiras. E tinha toda a razão. Senti-me um verdadeiro Eládio Clímaco. Para mim, aquilo foi uma potente demonstração do primeiro “Marido Telecomandado” do mundo. Fiquei convencido.
Com a chegada do verão aumenta a procura dos guias turísticos e dos mapas. Além do choque que é não termos mapas de Cascais, os clientes arranjam sempre maneira de se queixar de alguma coisa. Ou porque o guia é pequeno, ou porque é grande, ou porque há da Itália mais não há da Toscana ou porque não encontram o guia do Benim ou do Burkina Faso. Mas ninguém bate a senhora que pede um guia de África. Eu digo que não temos, e que nunca recebemos um guia de África, perguntando-lhe em seguida se queria algum país em especial. “Não, quero mesmo de África toda!” responde ela, já meio chateada e eu, sem poder fazer mais nada, volto a dizer que não temos nem vamos ter um guia de África. “Desculpe lá, se tem da Índia ou Alemanha, porque é que não tem de África?” inquiriu ela. Não consegui evitar, tive que lhe indicar o óbvio: “Pois, é que a Índia e Alemanha são países, África é um continente.” E bem grande, por sinal. Depois da senhora deixar passar na sua cara algumas cores entre o vermelho e roxo, soltou fumo das narinas e disse: “OBVIAMENTE QUE EU SEI QUE SÃO PAISES! E SEI QUE AFRICA É UM CONTINENTE! EU SEI A DIFERENÇA! EU SEI!”. Não era para ofende-la, mas ela estava a insistir demasiado. “Então, mas tem ou não tem?” Eu já tinha dito que não várias vezes, mas quem sou eu para dizer uma coisa dessas não é? O que eu digo não se escreve. Voltei a explicar-lhe que não tinha guias relativos a um continente no geral, só a alguns países em particular. Ela ficou furiosa e saiu. Não tive sequer tempo de lhe desejar boa viagem.
Os clientes muitas vezes, apesar de dizermos que não temos um livro, insistem para que consultemos a base de dados. Mas, encontram sempre maneiras curiosas de o fazer. “Não pode ver no seu computadorzinho?”, “Não ver na sua list?a” ou o meu preferido “Pode consultar os seus ficheiros?”. Este último, quando é acompanhado de um ar desconfiado e tom de voz solene, faz me sentir como um agente da PIDE.
O verão é também a época de algumas loucuras. Veja-se o caso de três amigas que estavam a consultar a secção de história. Pareciam ser pessoas normais (o que é difícil, nesta livraria). Até que começam a rir, a rir, a rir. Perdidamente, e aparentemente sem razão. Pelo meio dos risos conseguia ouvir um trémulo “vai dizer ao senhor, vai dizer ao senhor”. Não estava mais ninguém na loja, o “senhor” deveria ser eu. A piada não é isto, não se riam. Bom, finalmente uma delas ganha coragem, e entre o limpar das lágrimas diz: “Desculpe, podia ajudar-me? É que caiu ali uma coisa para trás…”. As outras riam. Eu disse que não havia problema, que, eventualmente, nós apanharíamos o livro que tinha caído. Elas riram ainda mais. “Não está a perceber, foi a minha peça que caiu lá para trás!” E riam as três, perdidamente. Deixou cair a peça dela, portanto? Certamente que era uma peça da cabeça, tal a figura que ela estava a fazer. Sem outra alternativa, lá tive que abandonar o meu posto de trabalho e ir afastar a prateleira. Depois da nuvem de pó dissipar-se, encontrei um caderno caído lá atrás. Entreguei-lhe o caderno. “Obrigado, salvou-me a vida” disse ela. Não quis desiludi-la, mas acho que o que ela tem não tem cura ainda… A minha pergunta é a seguinte: O que é que raio ela estava a fazer para o caderno ir ali parar? Acho que nem elas sabem.
Boas Férias (para quem tem sorte de as ter…).

quarta-feira, junho 28, 2006

Live In Paris

Já não posso ouvir Diana Krall. Imaginem isto: 5 ou 6 horas seguidas, 3 vezes por semana, sempre o mesmo CD. Sempre. Eu já não aguento, torna-se difícil fazer seja o que for com a constante repetição das músicas. De vez em quando surge uma música nova, a aparelhagem carrega outro CD. Surge uma ténue esperança, mas logo logo aparece a Feiticeira, essa paladina da repetição musical, e volta a por o CD da Diana Krall. Como se não bastasse o factor repetição, também tenho que estar constantemente a dizer aos clientes o que está a tocar. Todos os dias alguém pergunta o que está a tocar. E todas as vezes que isso acontece, sinto-me muito tentado a dizer: “Gosta?! Então leve! Já!”, mas, a moral e os bons costumes impedem que faça isso. Mas, ainda há pior. Além da repetição e das perguntas, temos algo infernal, demasiado horrendo para ignorar: o dançar. E se eles dançam. Confesso que a utilização do termo “dançar” pode ser considerada inadequada, mas é um termo familiar para a maior parte das pessoas (veja-se, por exemplo, Jerónimo de Sousa). É vê-los ai, espalhados pela loja, a dançar. Depois de várias horas de estudo, devidamente fundamentado por alguma leitura técnica, consegui dividir os dançarinos em dois grupos distintos. O primeiro grupo, composto maioritariamente por homens, executa um rápido abanar ou bater do pé, sempre fora de ritmo, com ramificações ao nível do estalar do dedo ou abanar da cabeça. Basicamente parece que estão com espasmos. Eles tentam cantarolar alguma coisa, mas o som que emitem é altamente imperceptível. Geralmente encontram-se nos cantos da loja, soltando pequenos espasmos e tiques ao que eles julgam ser o ritmo da música. Usam calças beges e camisas lisas. O cabelo é geralmente grisalho. O segundo grupo é composto maioritariamente por mulheres, e a dança é mais ao nível da coxa (como movimentos para trás e para a frente) e do joelho (movimentos para a esquerda e para a direita). O abanar de anca é por vezes de tal forma que, se mascassem pastilha, fariam boa figura nas movimentadas noites do parque Eduardo VII. Geralmente encontram-se nas esquinas da loja, entre as gôndolas. Relativamente ao grupo maioritário, infelizmente não tenho em minha posse dados estatísticos e correspondentes gráficos, mas, com base nas minhas investigações, diria que o grupo dominante é o grupo que abana a anca. Sei que posso vir a ser condenado pelos mais variados quadrantes da comunidade cientifica por uma observação ousada e inovadora como esta, mas é assim que penso. Ontem temi pela vida. Do meio do nada, um dos adeptos do espasmo foi se deslocando ao longo da loja, na direcção de uma abanadora de anca. Bom, meus amigos, senti-me como se fosse um explorador a observar o acasalamento entre dois Pandas. Decidi afastar-me e manter me em silêncio. Não queria perturbar o momento. Foi fascinante. Olharam um para o outro, reflectiram-se sobre o ridículo da figura que observavam, o que levou a reparem no ridículo da sua própria figura. O senhor limpou a garganta e saiu da loja embaraçado. A senhora ajeitou o cabelo e isolou-se num canto a contar uns livros. A Diana Krall continuou a cantar, e eu, infeliz, imaginava a tampa do piano a cair sobre os dedos de uma canadiana (e não americana, como alguns incultos para aí apregoam...) loura…
No nosso balcão temos uns marcadores num expositor bastante curioso, e, obviamente, pouco prático. Digamos que a única utilidade que consigo deslindar é a sombra que lança sobre o monitor, impedindo que fique encadeado com os holofotes, enquanto escrevo estas linhas. Os marcadores dão mais trabalho do que dinheiro. É sempre comum ver putos ranhosos e pitas histéricas à procura do nome e seu significado. Soltam sempre uma leve risota por gostarem do significado do seu nome, ou arranjam sempre maneira de fazer troça do significado do nome dos companheiros. Mas, há sempre alguém que gosta de se desmarcar dos demais. Estava eu no back Office com aquele grande mouro de trabalho e colecionador de multas, Gulbenkian, quando ouvimos o seguinte comentário: “Filipe, amigo de cavalaria, Fransico, homem, livre, Aster… ASTER?! Que nome mais estranho!”. A jovem devia ter visto que estava a ler um marcador alusivo a uma flor. Sempre na ânsia de ir mais além, um cliente não quis ficar atrás: “Matilde, rainha da vitória, Daniela, juíza de Deus, João, agraciado por Deus, Gladíolo… GLADÍOLO?! QUEM É QUE SE CHAMA GLADÍOLO!? JOÃO, ANDA CÁ VER ISTO PÁ, Há UM GAJO CHAMADO GLADÍOLO!”.
Para quê procurar vida extra-terrestre quando temos inteligência deste nível tão perto de nós?

domingo, junho 18, 2006

É pá, realmente, pá!

Hoje atendi um verdadeiro marialva. Bigode, telefone bem seguro na mão, corrente de ouro no pulso e no pescoço, andar gingão, palmada no rabo da mulher logo à entrada. Vejo esta personagem e espero que não se dirija ao balcão. Provavelmente quer saber onde se vende A Bola, ou coisa parecida. Mas, afinal não: “Jovem, tudo bem? Pá, a minha mulher quer aprender de computadores, ou o caraças, podes me dar aí um dica?”. Muito bom, pensei eu, uma dica. Quem é que usa uma frase dessas, ainda para mais numa livraria. Acedi ao seu pedido e dirigi-me à zona de informática. Pelo caminho ainda o ouvi: “Esta mulheres, ainda agora saíram da cozinha e já querem computadores, oh caraças…”. Qualquer dia ainda votam, pensei eu. Chegámos ao local da informática e comecei a procurar a colecção “Para Totós” da Porto Editora. Era mais do que adequada. Não tínhamos o livro indicado, então procurei algumas alternativas. Devo dizer que foi complicado, porque procurar algo quando temos alguém ao nosso ouvido constantemente a debitar frases começadas e acabadas em “Pá” é uma tarefa árdua. Lá encontrei o livro e dei-o à senhora. Obviamente que o cliente o arrancou prontamente das mãos desta, e começou a folheá-lo. Claro que passado dois segundos, sem ter lido fosse o que fosse diz: “Pá, tão e não tens nada assim pó mais avançado?”. Ou bem que quer livros o mais básicos possíveis ou bem que não quer. Decidam-se. A senhora insistiu, e acabaram por levar aquele. E o que se seguiu, meus amigos, foi espectacular. O homem, tentando arrancar um desconto à força, lançou um número incrível de frases em apenas um minuto. Parecia saído de um concurso de televisão. Quem é que não se lembra daquela prova fantástica de um programa do Júlio Isidro, “Parvoíces para arranjar desconto, em apenas um minuto”? Ele seria imparável. Começou, ainda estava na zona da informática. “ISTO POR SER A PRIMEIRA COMPRA DÁ 50% DE ESCONTO NÃO É PÁ? PÁ, E SE FIZERMOS UM CARTÃO? E SE PROMETERMOS VOLTAR CÁ E FICAR CLIENTES? E SE FORMOS SÓCIOS PÁ? E SE PAGARMOS A PRONTO? E SE PAGARMOS A CRÉDITO SEM JUROS PÁ? E SE PAGARMOS A DINHEIRO?”. Claro que não teve desconto. Mas valeu o esforço, pá.
Realmente os clientes farejam o desconto. De vez em quando temos campanhas especiais de desconto, durante as quais alguns títulos seleccionados têm 10% de desconto. Obviamente que não pomos etiquetas de desconto em todos os livros. Mas, os clientes, sempre zelosos dos seus interesses, trazem sempre os livros que têm o autocolante, não vá o livreiro maldoso negar-lhes o desconto. Claro que, quando as campanhas acabam, acaba por ficar sempre um ou dois livros com a etiqueta. Aí, quando eles aparecem, não há outro remédio senão fazer mesmo o desconto. Mas, o que me intriga são alguns clientes acabam sempre por encontrar um livro perdido com desconto, por mais que tiremos etiquetas. No outro dia tive que mudar uma montra onde estavam alguns livros com desconto. Já estava em cima da hora de abertura, e se demorasse mais algum tempo lá vinha o segurança chatear. Então o que é que eu fiz? Escondi os livros com 10% de desconto debaixo dos que não tinham desconto, de modo a que não fosse possível vê-los. Ficou tudo em ordem. Ou assim pensei eu. Durante a tarde, surge uma senhora com o tal livro, com uma etiqueta de 10% de desconto. Perguntei educadamente à senhora onde é que tinha tirado o livro, pois podia haver mais livros com a etiqueta. “NA MONTRA, PORQUÊ?” responde ela. Na montra. Aqueles papéis com os avisos para não mexer na montra não interessam. Fui à montra e tinha a montra virada do avesso. A senhora, com o seu faro apurado, revirou a montra toda e lá encontrou, debaixo de 20 livros, um livro com desconto. Também devia entrar em concursos.
Por falar em segurança, os deste centro comercial são muito especiais. Quando a loja é assaltada, ninguém vê nada, mas ai de quem for à montra enquanto a loja tiver aberta. Surge logo um segurança a chamar a atenção, indicando obviamente as possíveis represálias. E reagem da mesma forma a atrasos e nudez. Nunca percebi porquê. O que acho mais piada nestes seguranças é que não podem entrar nas lojas sem autorização. Fazem me lembrar os vampiros da Buffy. Aliás, consta que um vampiro da Buffy, ao ser comparado a um segurança de centro comercial, espetou ele próprio uma estaca no seu coração. Não o censuro.

quarta-feira, junho 14, 2006

Só Às Vezes...

Há que dar mérito à Margarida Rebelo Pinto. Eu sei, eu sei, é uma maneira bombástica, diria até quase surreal, de iniciar um post, mas o que é para ser dito tem de ser dito. E porquê? Por causa da fita que fecha o seu mais recente livro, “Diário Da Tua Ausência”. A fita, de cor bordeaux, é a principal atracção do livro. Senão vejamos, esta aparentemente inocente e simples fita serve muitos propósitos. O mais óbvio é manter o livro fechado, para não corrermos o desnecessário risco de queimarmos alguns neurónios. Mas, se por acaso, por alguma tentação mórbida e fetichista decidimos retirar a fita e ler o livro, temos duas hipóteses: Ou usamos a fita como um bonito garrote de modo a salientar as veias do pulso para as cortar de seguida, pondo fim à nossa miséria, ou ainda pode servir para cortar a respiração através de enforcamento. É praticamente um canivete suíço.
Se há coisa que me deixa perplexo é o cartão de cliente. Esta prática de ter um cartão de cliente alastra-se a tudo o que são lojas, não sendo raro ver os clientes com uma carteira à parte só para albergar os vários cartões de clientes. E. o mais curioso de tudo, a maior parte dos clientes nem sabe para que é os cartões servem. “Tenho aqui um cartão, ou lá o que é, nem sei para que serve.”, ou então “Acho que tenho aqui um cartão vosso, isto serve exactamente para quê?” Quando eles dizem estas frases, os seus olhos brilham e o seu rosto ostenta uma curiosidade quase pueril, muitas vezes mostrando alguma dificuldade em conter a excitação. Porquê, pergunto eu? É apenas um cartão. Os clientes perguntam isto de uma maneira que faz-me sentir tentado a dizer: “Esse cartão dá-lhe automaticamente o super-poder da visão raio-x e força sobrenatural. Vai passar a conseguir saltar arranha-céus de uma só vez, fugir às bichas na ponte e às férias na Caaparica. Ah, e também acumula 10% de tudo o que compra, para depois receber um vale de desconto, mas isso pouco ou nada interessa!”.
É prática comum ligarmos para outras lojas para reservar ou pedir que transfiram algum livro. E, é também bastante comum esse acto, aparentemente elementar, demorar uma eternidade, e também revelar-se infrutífero, com o colega a não encontrar o livro. Depois de vários e longos minutos colado ao telefone à espera de um qualquer livro, fico sempre à espera de o caro colega do outro lado da linha diga o seguinte: “Olhe, não encontrei o livro que me pediu, mas, ali atrás de umas estantes encontrei o Santo Gral, não sei se lhe interessa , veja lá, você é que sabe…”
Uma das nossas colegas fez uma pequena operação cirúrgica às orelhas. Foi algo meramente estético, sem qualquer complicação, mas que, ainda assim, a obrigou a usar durante alguns dias uns enormes pensos brancos nas orelhas. Por muito que tentasse ocultá-los com o seu cabelo, eles eram por demais evidentes. Ora os clientes, simpáticos como sempre, não conseguiam desviar o olhar, algo que a incomodava. Claro que eu, altruísta como sempre, sugeri-lhe uma maneira de se divertir com a situação. Era muito simples, sempre que algum cliente ficasse especado a olhar ou referisse algo, ela diria apenas que tinha sido atacado por um bando de morcegos raivosos à saída do trabalho. Ela não achou piada. O humor não é o seu forte. E pelos vistos o meu também não.
Estava eu no balcão, sossegado como sempre, compenetrado no meu trabalho, quando surgem duas senhoras brasileiras junto ao balcão. Primeiro pedem-me calendários do mundial. Não temos, nunca tivemos, facto que as deixou deveras incomodadas: “Como é que é possível, no Brasil há em todo lado né?” Tem toda a razão, mas o mais provável era levar o calendário e ser raptada mal saísse da loja. Mas o importante é o calendário. Depois deu uma volta pela loja, viu uns livros e voltou para falar comigo: “Oi, você pode ler enquanto trabalha?”, pergunta ela, pertinentemente. Efectivamente posso ler enquanto trabalho, mas não dá muito jeito ler Paul Auster enquanto se carregam pilhas de 30 livros. Levem isto como um conselho. Respondi que não, não podia ler durante o horário de trabalho. Claro que toda a gente passa os olhos por um livro ou outro, mas não vou dizer isso a um cliente. E qual é a resposta dela? “Ah, então não quero trabalhar aqui não!”. E foi embora. E eu lá fiquei. A ler, porque não estava para me chatear muito. Ser Livreiro às vezes tem as suas vantagens. Às vezes…

terça-feira, junho 06, 2006

Porquê Eu?

Sem querer entrar em conspirações, acho que a maior prova de que o dia 6/6/06 não traz coisas boas é o lançamento do novo cd dos DZR’T. Imagino Satanás, no seu covil, a planear o seu regresso e escolher os seus súbditos: “Saddam, não… Muito velho… Bin Laden, não, pouca classe, vive numa caverna… O Goucha está ocupado… Hmmmm… Olha aqueles quatro abichanados que se abanam em palco como se fossem animais feridos… Sim, o terror! Vão ser estes os meus enviados para anunciar o fim do mundo! E que sons horrendos eles soltam! O quê Hitler? Eles estão a cantar?! Não posso! Tens a certeza?! Bom, se o dizes… Sim, sim, são estes os escolhidos!”
Desde os remotos tempos da antiguidade os filósofos como Sócrates tinham como hábito, para além de ler os diários desportivos, questionar tudo o que fosse possível questionar. Quem sou? Para onde vou? De onde venho? Porque é que raio sou sempre eu a atender os clientes mais tresloucados? Eram todas questões válidas. Quando confrontado com esta ultima questão, era frequente ver Sócrates chorar compulsivamente. E aqui estou eu, no século XXI, com a mesma questão. Porquê eu? Quatro pessoas numa loja. 25% de hipóteses de ser abordado por um qualquer louco. A percentagem parece jogar a meu favor, mas, obviamente, ele vem ter comigo. O que se seguiu foi algo de inqualificável. O senhor começou a pedir livros de 1928, e, obviamente, ficou chocado quando verificou que nós não tínhamos nada do que ele queria. Dai a maldizer o país, classificando-o como sendo de terceiro mundo, e a usar todo e qualquer palavrão comum da língua portuguesa foi um instante. “EU JÁ TIVE ESSES LIVROS, MAS EMPRESTEI E ROUBARAM-ME. QUERES O HERMAN HESSE? TOMA. E O LIVRO? TCHAU, NUNCA RECEBI NADA!” disse, enquanto fazia algo semelhante a uma dança, em frente do balcão. Depois falou da nossa livraria, de outras livrarias que tinha visitado. E isso levou-o a falar de lojas de roupa. Lá ia reclamando sobre os preços, enquanto dançava para a frente e para trás, soltando um palavrão aqui, um palavrão ali, como se fosse nada com ele. Segundo ele, ninguém quer dar quarenta contos por umas calças da Trussardi! Depois disse que eu não podia ter boa roupa porque estava ali, atrás de um balcão, e quando soube a marca da minha camisa explodiu novamente. Porque a marca em questão é demasiado clássica e está praticamente falida. E disse que “OS PORTUGUESES NÃO SÃO BRITISH! NÃO SÂO BRITISH!”. O que, indo ao fundo da questão, até faz sentido. Os portugueses são portugueses. Se fossem britânicos, já não eram portugueses. Eram britânicos. E continuou: “SE FOR A INGLATERRA TEM UM PRETO NO AUTOCARRO A DIZER TICKETS PLEASE! TICKETS PLEASE! E VOCE O QUE É QUE FAZ? MANDA O À MERDA! AGORA CA EM PORTUGAL? SE MANDAR O MOTORISTA, HOMEM OU MULHER À MERDA, ELE MANDA O DE VOLTA! SABE O QUE EU FAÇO? FUJO. SE ME MALTRATAM, FUJO. SE ME BATEM FUJO. SE OS POLICIAS ME MALTRATAM, FUJO. NUNCA BATI. SOFRI? MUITO! POR ISSO É QUE VOU SER CAMIONISTA!”. Eu, a esta altura, já estava a olhar em frente, a pensar no que iria fazer hoje, no que seria o jantar. E os meus colegas, sem saber bem o que se estava a passar, viam aquele cliente a saltar, dançar, berrar. Ele continuou, apontando para a tatuagem que ostentava no braço esquerdo: “E AGORA SOU GAY! Estou a brincar consigo. INDA ONTEM LEVEI UM PAR DE CORNOS! MAS ESTAVA PREPARADO! ERA UM HOMEM MARAVILHOSO! VAI A ESTA HORA A CAMINHO DE BARCELONA, NO SEU CAMIÃO!”. Lá está a tara por camiões. Mas o pior ainda estava para vir. “EU VOU SER CAMIONISTA. TENHO AULAS HOJE! SE FOR, VOU, SE NÂO, OLHA, FO… SABE O QUE EU FAÇO AO MEU CAMIÃO?” Eu já estava por tudo, mas nada me podia preparar para o que vinha a seguir. O cliente bate numa agenda do Rock In Rio e diz: “FAÇO ISTO!” E lambe o livro, de uma ponta a outra, da forma mais pornográfica e lasciva que possam imaginar. “FAÇO ISTO PORQUE AMO O MEU TIR!”. Já tinha visto muita coisa, mas um cliente lamber um livro de alto a baixo foi algo novo. Já estava desesperado a esta altura, sem saber o que fazer para sair dali. Ele não parecia ter intenções de se ir embora. E os meus colegas, simpáticos, não sei do que é que estavam à espera para por o telefone a tocar e dizer que era para mim. O cliente continuou a falar, sobre despedimentos prévios, idas a França (tinha sotaques inglês e francês irrepreensíveis), contactos com um gerente de uma grande entidade bancária nacional, que, segundo ele, remonta ao tempo da sua casa de 1610 de Manique. “E EU VIA O GAJO A VIR NA ESTRADA E DIZIA: EH GAJO! E TIRAVA AS MAOS DO GUIADOR! RESULTADO, CAI DA BICICLETA. E O CAPACETE? ESTAVA EM CASA!” Pronto, isto explica muita coisa. Antes de se ir embora, perguntou o meu nome e disse para eu não comprar nada na tal loja de roupa. E saiu da loja, abanando-se como se não houvesse amanhã.
E, tendo em conta que hoje é o dia 6/6/06, até podia ter razão…

terça-feira, maio 30, 2006

Obviamente, Demito-o!

É quase morto por um calor insuportável que O Livreiro regressa às hostes do seu blog. O calor, meus amigos, o calor… Nós temos ar condicionado, por isso, não se está mal na loja. Mas, para quem vem de fora… Passou lá um cliente, com o já típico ar de veraneante, calções, chinelos, etc., que estava interessado no livro “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas” de Dale Carnegie. Bom, é uma atitude nobre, querer fazer amigos. Mas talvez fosse melhor ele comprar o livro “Como Tomar Um Banhinho Jeitoso Antes de Sair de Casa” antes de tentar fazer amigos, porque, com aquele pestilento odor a segui-lo nem o Dale Carnegie o ajuda. O homem não faz milagres.
Alguns clientes continuam a insistir nas velhas frases, e, por mais inverosímil que possa parecer, alguém lembra-se sempre de alguma maneira nova para as dizer. Veja-se o caso do já mítico “Se fosse bicho mordia!”, frase preferida dos clientes quando querem um livro que, espante-se, afinal se encontra diante dos seus olhos. Já dissertámos sobre variantes como “é como ir à horta e não ver as alfaces” ou o clássico “se fosse cão mordia”, mas, desta vez, deparei-me com um original e, porque não dizê-lo, brilhante comentário. Quando indiquei ao senhor a pilha de 50 exemplares do “Código Da Vinci” a um metro de si, o senhor exclama, entusiasmado: “EPAH! SE MORDESSE, MORDIA!”. Ora, ai está. Se mordesse, mordia. Parabéns, Capitão Óbvio, salvou o dia mais uma vez!
Depois temos a habitual discussão do “já é boa tarde / ainda é bom dia”. Custava muito às pessoas responder tal e qual o que lhe dizem? Se digo bom dia, diziam bom dia. O mesmo para o boa tarde e boa noite. Quando respondem algo de diferente, enfim, aceita-se. O pior é quando, além de responderem de forma diferente, ainda acrescentam comentários. E é o costume, “boa tarde, porque já almocei”, ou “boa tarde porque já passa do meio-dia”, ou “bom dia porque ainda não é uma da tarde”. Mas, o meu preferido é o cliente que, depois de eu dizer um simpático Boa Tarde, responde “PARA MIM AINDA NÃO É TARDE!”, completamente ofendido. Abram alas para entidade reguladora do Universo! Peço imensa desculpa, se para si ainda não é boa tarde, não é para ninguém! Já agora, que dia é hoje? Não vá estarmos todos enganados.
Devo vos dizer que aquele balcão é um lugar privilegiado para assistir a certos e determinados acontecimentos, como o já milenar “a minha vida é melhor do que a tua, amigo que não vejo à um ano”. Mas, às vezes, as coisas não correm como de esperado. A livraria, mais do que um estabelecimento comercial, é um ponto de encontro. Uma, vá lá, sala de estar do pequeno Portugal. Vejam o caso paradigmático dos dois amigos e respectivas mulheres e filhos que se encontram numa livraria. Encetam uma agradável conversa, com um dos amigos particularmente empenhado em mostrar os seus sinais de riqueza. E qual é um dos pontos fulcrais do seu triunfante discurso. O telemóvel, obviamente. “Queres ver o meu telemóvel?” Antes do pobre coitado dizer que não, já estava com o objecto a 3cm do nariz. “Tem Bluetooth, Internet, MPTHREEEE, (Não é mp3, é mpTHREEEE), agenda, alarme, despertador… “ A lista de conteúdos era grande, realmente, e eu estava ansioso por ouvi-lo dizer que fritava batatas, mas, aparentemente, o telemóvel dele não é assim tão bom. Quando termina a extensa lista, foi a vez do amigo falar. E eis que, a única coisa que diz é: “Olha, mas ele está desligado.”. O pânico apoderou-se da cara do amigo. Voltou o telemóvel para ele, dizendo: “Não, não pode ser, ainda a bocado o carreguei, queres ver, devo ter desligado sem querer!”. E ligou o telemóvel, que, imediatamente, se desligou outra vez. Depois de voltar a ligá-lo, tentou tirar uma foto e o telefone bloqueou. “É topo de gama, garanto-te, é brilhante, queres ver umas fotos?” Era o desespero em pessoa. Quando o pobre amigo saiu, finalmente, o dono do telemóvel comenta para a mulher: “Telemóveis de 100€ é o que dá…”. Nem mais, nem mais…
Realmente há coisas inexplicáveis. Alguém me dê um motivo (quem disser o mais plausível habilita-se a prémios fantásticos) para um cliente que se dirige ao balcão, onde estava com a minha colega, e diz “Queria o livro do General Humberto Delgado!”. Eu olhei para a minha colega, ela estava mais perto da saída do balcão. Ela percebeu a deixa e disse: “Só um segundo, vou ali buscar…”. E qual é a reacção do cliente? Basicamente foi isto: “JÁ VI QUE NÃO TEM! É MELHOR IR A OUTRO LADO, IR Á FNAC, INCRÍVEL!”, disse, enquanto esbracejava vigorosamente. E a minha colega perto do livro, olhava incrédula para ele. Acho que ele, obviamente, demitia-nos! Claro que ele, depois de ter dito furiosamente que iria à FNAC, saiu da loja para o lado exactamente oposto. Estava perdido, em todos os sentidos.
Até breve...

domingo, maio 14, 2006

Montagem de Expositores Para Totós

Têm sido uns dias atribulados, estes que vivemos. Quinta-feira de manhã, por entre uma enchente de pessoas logo às 11 horas, conseguimos ver uma rapariga desmaiar mesmo à frente da loja. Pobre criatura, trabalha num stand da Philips alusivo ao mundial, onde, os felizardos consumidores, podem habilitar-se a ganhar umas televisões e outras coisas que tais. Tudo bem que eles dizem que os prémios são de cair para o lado, mas a rapariga não devia levar isso tão à letra. Isto dos prémios tem que se lhe diga. Não é raro chegarem aqui pessoas com cupões para ganharem qualquer coisa. Nós tentamos explicar que não é aqui que se entregam os cupões, mas as pessoas não desistem. Quando finalmente param de reclamar para nos ouvir, nós explicamos que é “aqui à frente” que se entregam os cupões. As pessoas olham, dão uns passos para o lado para ver melhor e perguntam: “Aqui à frente? Onde?”. Basicamente é no stand no meio do corredor, a 2 metros da porta, que tem mais de 10 metros de comprimento, com cabines ENCARNADAS, em cima de um tapete VERDE, que dizem MUNDIAL DE PREMIOS em letras garrafais. Eles até têm uma baliza com um televisor de plasma lá dentro, por amor de Deus! Como é que é possível não ver?
Estava eu no balcão com o grande Gulbenkian, esse grande filantropo, figura de proa da missão Crescer em Príncipe (que, pasme-se, até já figurou numa edição do Expresso), quando surge uma senhora, com um ar bastante confuso. “Vou-lhe pedir uma coisa difícil…” disse-nos. Eu expliquei-lhe que se ela queria que o Gulbenkian agisse como um homem, ia ser difícil, mas de resto, podíamos ver o que é que podíamos fazer para ajudar. Queria um livro que não tínhamos, que surpresa.
Devo admitir, em primeira-mão, que sou um homem mudado. Não há que negar, sou um homem mudado. E tudo devido a algo que presenciei, durante hora e meia. Noddy Live, era o nome do espectáculo… Pois é amiguinhos, fui ao Noddy Live e saí de lá um homem mudado. Foi a loucura. Deviam ter visto os miúdos, no espaço entre o palco e a primeira plateia, a lutarem, saltarem, rebolarem, correrem, e espancarem-se quase até à morte com uns paus cheios de luz que eles por lá vendiam, para desespero dos pais. Ainda pensei em começar um mosh, mas ninguém me ligou nenhuma. Não brinquem, aquelas músicas do Noddy roçam o heavy metal. Posso quase jurar que vi o Sonso a tentar fazer stage diving, e um puto a saltar do primeiro balcão para a plateia. A seguir ao espectáculo, nos corredores do Pavilhão Atlântico, ocorriam as habituais conversas sobre o desempenho dos artistas. “Ah e tal, o Noddy já esteve em melhor forma, tem chegado atrasado aos treinos…”. Mas o mais curioso foi uma conversa entre dois petizes. Ao olharem para um poster alusivo ao espectáculo, disseram o seguinte:
- A minha tia faz me lembrar a Ursa Teresa
- Que giro, chama-se Teresa?
- Não, é uma ursa!
Sempre na pândega, estas crianças…
Temos tido várias campanhas especiais nas últimas semanas. A mais recente prende-se com a colecção “Para Totós” da Porto Editora. Para o efeito, além de termos que por os livros dessa colecção na montra, recebemos uma expositor com mais de 1,50m de altura, com 3 prateleiras com uma divisão central para expormos os livros. É um expositor vistoso, amarelo, ocupa muito espaço e basicamente desempenha bem a sua função. Que é incomodar. E o maior problema nem é o expositor em si, mas sim a montagem. O expositor veio completamente desmontado, dentro de um caixote. Este caixote deveria ter escrito num dos lados “Como Entreter Três Livreiros Durante Cerca de Uma Hora”. Porque foi isso que aconteceu. Três Livreiros, um expositor, mais de uma hora. O Expositor deveria vir acompanhado do livro “Montagem de Expositores Para Totós”. Devo-vos dizer, que, da primeira vez que conseguimos montar e juntar todas as peças, fizemos um Eusébio de cartão amarelo. É verídico. Isto de dobrar e encaixar cartão não é, definitivamente, connosco. Mas, depois de muita luta, lá conseguimos erguer o expositor e ficámos a olhar para ele, orgulhosos, durante alguns segundos. Depois do orgulho veio a vergonhoa, porque não era possível termos demorado uma hora a montar aquilo. Depois disso, veio a aceitação. Tudo bem, demorámos, mas ficou bem montado. E, por fim, veio o esquecimento. Menos para o Gulbenkian. Ele passou da aceitação para o amor. Consta que quando a campanha acabar ele quer levar o expositor para casa. Que sejam felizes...

quinta-feira, maio 04, 2006

Eu... Eu é Que Sou o Inspector do Trabalho!

O José Pedro Gomes, no seu livro “O Pais dos Jeitosos”, escreve sobre uma carta, e o tempo que esta demoraria a chegar de Lisboa a Cascais. Sem querer tirar a piada do texto, o facto de um livro demorar uma semana a fazer o mesmo trajecto (ou até mesmo dentro de Lisboa, ou dentro de Cascais) tem muito mais piada. Geralmente quando dizemos que um livro demora uma semana a vir de Lisboa, a reacção dos clientes tende a cair na indignação: “O QUÊ? SÓ PODE ESTAR A BRINCAR! É RIDICULO!”. Mas, hoje, um cliente, quando confrontado com o facto de que o seu livro demoraria uma semana a chegar, pura e simplesmente desatou a rir. Ia rindo, enquanto tentava pedir desculpa por rir, se agarrava à barriga e limpava as lágrimas dos olhos. Toma lá, Zé Pedro Gomes, aposto que os teus espectadores não choram a rir.
Depois temos a nossa colega Feiticeira. Só para terem uma ideia, uma cliente chega junto dela com um livro e pergunta: “Está cá há muito tempo?” e a resposta dela é: “TOU CÁ DESDE AS 10 HORAS JÁ NÂO POSSO COM ISTO; ESTA CHOLDRA, SÓ MULHERES-A-DIAS E MERCEEIROS!”. A cliente assustou-se, e disse: “Eu só queria saber se este livro era recente ou não…”. E depois, a meio da tarde vê uma pessoa lá fora a olhar para ela. Olham uma para a outra. Anda para trás e para a frente ao mesmo tempo. Finalmente dirigem-se até à entrada da porta. Chegaram lá, ficaram a olhar mais um bocado. Encetam uma conversa, perguntam o nome uma da outra, locais de trabalho, locais de lazer. Nada, não encontram nada em comum, não havia uma coincidência. Desiludidas, parte cada uma para seu lado. Que conversa tão eloquente e interessante. Que momento bonito. Por momentos temi que fossem irmãs separadas à nascença ou coisa que o valha.
E depois são os Trovante, o Represas, o Rui Veloso e a Mafalda Veiga. Sempre que pode a Feiticeira mete estes artistas a tocar. No outro dia, à porta do hospital, presenciei uma conversa que considero bastante elucidativa:
- A música da Mafalda Veiga leva-me às lágrimas.
- É muito comovente não é?
- Não, faz me doer os ouvidos, é tramada… …
- Ah… Mas então diga-me, vizinha, porque é que veio ao hospital?
- Tenho tido um corrimento esverdeado…
- Ah… Pois.. É chato… Eu aqui tou, estas varizes… Sempre aproveito e ouço um bocadinho de Rui Veloso pelo caminho.
- RUI VELOSO? Comparado com o que tenho não é nada, os meus pêsames…
Não me levem a mal, os artistas que mencionei não são maus. Pronto, a Mafalda Veiga secalhar até é… Mas, mesmo assim, o que é demais enjoa.
Estava eu, descansado, a tratar de umas facturas no Back Office quando surge uma criança, com cerca de 6 anos, com os olhos completamente esbugalhados. A sua mãe andava aí a ver livros, despreocupada. A criança dirigiu-se a mim e perguntou-me “O que é estás a fazer?”. Eu expliquei-lhe que estava a trabalhar e que o meu patrão devia estar a chegar, e que o segurança não deixava ninguém entrar ali, por isso era melhor ele ir lá para fora ter com a sua mãe. Ele não me ligou nenhuma. Chegou-se ao pé de mim e agarrou o meu braço, deu me um pequeno abraço e disse, pegando no meu identificador: “É o teu nome?”. Respondi afirmativamente, e voltei a insistir na história do segurança. “AGARANÇA?”, respondeu ele, admirado. Eu tentei que ele saísse, e só quando ele desviou a atenção para uma colega minha é que saiu: Andou a correr pela loja, a sair da loja com livros na mão, a correr atrás do balcão, a mexer em tudo e mais alguma coisa. Volta pela terceira vez lá dentro, e pela terceira vez eu disse-lhe a mesma coisa. Ele deixou de sorrir, abriu ainda mais os olhos, recuou e disse: “CALA-TE! NÂO MANDAS EM MIM!” E ficou a olhar para mim. Eu ri-me e disse para ele ir brincar. Então saiu, foi falar com a minha colega e correr pelo balcão, sempre sorridente e feliz. Mas, cada vez que passava à porta do Back Office dizia: “CALA-TE! NÂO MANDAS EM MIM!” Depois voltava a sorrir e fugia. Chegou a falar com uma colega, todo sorridente, e, ainda estava ela a falar, ele volta-se para trás, lança-me um olhar mortífero e diz, entre dentes: “Cala-te… Não mandas em mim…”. Tive medo.
Na sexta passada tivemos a visita de uma brigada da Inspecção Geral do Trabalho. Eram três vingadoras, de crachá aberto, parecia uma entrada tipo NYPD. Só faltou terem dito Freeze! Fizeram umas perguntas e tal, eu admiti que conhecia o Fat Tony (Toni Gorducho, para os leigos) mas que não matei o Jimmy Weasel (o Jaime Doninha). Elas não perceberam do que eu estava a falar, e pediram-me para assinar um papel. O problema é que elas é que assinaram no local onde eu devia ter assinado. Não me restou solução senão assinar no local de Inspector. Isso é que daria um belo blog…

sábado, abril 29, 2006

Não Explicam!

Os editores deviam ter mais cuidado com a forma como colocam o número da edição na capa. Existe um grupo de pessoas que teima em arranjar confusões com o número da edição. Há sempre aqueles que querem a 1ª edição dos livros que compram, e ficam muito desiludidos quando não a conseguem, tentando a todo o custo arranjar algum exemplar da mesma. Alguns chegam ao cúmulo de nem sequer comprar quando a edição não é a primeira. Mas estes nem sequer são os piores, há aí uma pandilha que não é para brincadeiras. Chega uma cliente ao balcão com o livro de São Cipriano na mão. Aponta para o 3 que indicava o número de edição e diz: "OH SENHOR, TEM AÍ O 1 E o 2? É QUE NUM VOU TAR A LER O TERCEIRO SEM LER O SEGUNDO E O PRIMEIRO NÉ?! ASSIM NUM PERCEBO NADA DA HISTÓRIA!". Explicar que aquele número representa apenas o número de edição e não o volume do livro torna-se complicado. E claro, depois temos o clássico que, trazendo um livro de aprender Inglês em 30 dias diz: "EU COMPREI AQUI A SEGUNDA EDIÇÂO E AGORA A TERCEIRA E OS EXERCICIOS SÃO TODOS IGUAIS, TODOS IGUAIS! PARA ISSO NUM COMPRAVA!". E lá vem a explicação outra vez, e acho que a maior parte das vezes eles não percebem.
Eu é que não percebo o que é que leva uma senhora a pegar na lista do telefone, pensar que lhe está a apetecer chatear alguém e escolhe o nosso número. E liga. "Boa tarde, fala da Livraria? Podia-me dizer porque é que a vossa loja de Faro não atende?". Obviamente que não faço a mínima ideia. "Mas não sabe ou não quer saber?" E aqui começa o rol de perguntas em que, seja qual for a resposta que dê, a senhora nunca fica satisfeita, apresentando a sua resposta para a sua própria pergunta. Eu digo que deve ser devido ao movimento, ela acha que "Deve ser porque estão com falta de gente". E continua:"Tem livros do Camilo Cela? Não? Porque é que não tem livros de um autor que ganhou o Nobel?" Dou a minha resposta, e ela contra ataca com "Não, não é isso, é porque ele não é vendável, com certeza". E termina com um brilhante "Bom, vou ligar para outras lojas para saber se têm os livros.." E fica em silêncio, eu também. "Então, não ouviu? Não diz nada?" Bons telefonemas? Que é que é suposto eu dizer a sguir a alguém dizer "ligar para mais lojas?". Finalmente despediu-se: "Uma Boa Tarde sim?" Claro minha senhora, uma boa tarde e uma boa vida. De preferência longe de nós.
Estava eu descansadamente a tentar fechar a caixa do dia anterior quando surge um problema que não sabia como se resolver. Não fazia mesmo ideia onde é que se inseria o valor relativamente a um cheque oferta. Não queria que nenhum superior soubesse da minha ignorancia, então tentei ligar aos meus colegas. Não foram grande ajuda, verdade seja dita. Ou não atendiam ou não sabiam. Tentei então ligar, em desespero, ao nosso saudoso Mestre Livreiro, esse mito do meio-fundo movido a tabaco, mas também não atendia. Bem, pensei em deixar estar, quando chegasse alguém à tarde o assunto certamente ficaria resolvido. Mas, eis senão quando, o telefone toc. Atendo, era da contabilidade E o que se passou a seguir foi basicamente isto:
Contabilista - Muito bom dia, falta-nos aqui uma caixa.
Livreiro - Ah, exacto, é que eu estava mesmo aqui a er... acabar.
Contabilista - Ok então, está explicado.
Livreiro - Já agora, só aqui entre nós, como é que se insere o valor do cheque oferta?
Contabilista - Pois, isso agora não sei, não estou familiarizada com os vossos quadros.. Dê-me só um segundo que eu pergunto aqui...
(Som de pousar o telefone)
Contabilista (Aos berros) - Está aqui o Livreiro da Loja X ao telefone, ele não sabe fazer uma coisa, alguém sabe explicar? Sim, o Livreiro da Loja X não consegue fechar a caixa, alguém pode ajudar?
(Som de alguém a pegar no telefone)
Contabilista - Ninguém sabe... Vou passar à entidade máxima da contabilidade, o nosso director.
(Música de elevador)
(Mais música)
Director - Bom dia, então o sr. Livreiro não sabe fazer isto?
Livreiro - Pois, é que tenho aqui uma dúvida sobre qual será a categoria certa para a despesa.
Director - Então, é só inserir tal e qual está.
Livreiro - Er.. Ah, ok, obrigado então... Pronto era só isso.
Apeteceu-me terminar a frase com "Agora se me der licença vou só ali atirar-me daquele penhasco". Ou seja, eu não queria que ninguém soubesse que eu desconhecia como se procedia naquela situação e o que aconteceu foi que espalharam isso por toda a contabilidade. Muito bom. Façam uns mails, mandem uns forwards, colem uns cartazes, façam uns blogs. Espalhem ao mundo que eu não sabia fazer aquilo. Agora já sei, foi remédio santo...

terça-feira, abril 25, 2006

Poliglotas

A noite de Sábado foi pródiga em imagens de terror, acho que nunca me tinha assustado tanto com algo que passasse na televisão. E isto só com os festejos da conquista do campeonato pelo FC Porto. Tive de impedir a minha avó de ver, não fosse ela ter algum ataque cardíaco. Claro que também apreciei muito as partes de comédia dos festejos, especialmente aquela senhora que dizia “A SEGUIR BEM O PENTA!”. Alguém ensine a senhora a contar, depois do 1 não vem o 5. Mas pronto, foram campeões, mereceram.
Na quinta passada o Baixas foi protagonista de um momento que tenho alguma dificuldade em classificar. Caricato é um bom termo, mas acho que não faz justiça ao que se passou. Estávamos no Back Office, com o gerente a trabalhar descansadamente no seu posto, e estávamos no nosso habitual debate das quintas-feiras sobre o presente, passado e futuro dos videojogos. Estava tudo a correr bem, até o Baixas ter uma saída brilhante. Foi qualquer coisa assim:
Livreiro – Pois, para mim o melhor jogo online para qualquer consola portátil é, sem dúvida, o Mário Kart DS
Baixas – Mário Kart?
Livreiro – Sim, Mário Kart, aquele que também há para Gamecube e Gameboy Advance.
Baixas – Ah, já sei, aquele que jogávamos aqui?
(BAIXAS OLHA PARA MIM E LEVA AS MÃOS À CABEÇA)
(SILÊNCIO)
(SILÊNCIO)
(SILÊNCIO)
Baixas – Aquele que tem uns carros todos infantis?
(RISOS INTERMINÁVEIS E A ROÇAR O HISTÉRICO DOS DOIS)
Livreiro – Baixas, tu és hilariante!
(MAIS RISOS, ACOMPANHADOS DE LAGRIMAS)
(NOVAMENTE SILÊNCIO)
Livreiro – Pois, é o melhor
Baixas – É capaz.
Portanto o rapaz, sentado ao lado do seu gerente, diz que aquele era o jogo que nós jogávamos no local de trabalho. É só inteligência. Já agora dizia que também dávamos uns toques no Pro Evolution 5 e umas voltinhas no F1 2005 para PSP. Enfim, é dos medicamentos, ninguém o leva a mal.
Ontem de manhã surgiu uma cliente no balcão, que, sem perder tempo, disse, confiantemente: "Queria um livro do Dostoievsky, se faz favor." Boa, pensei eu, consegue pronunciar Dostoievsky melhor do que o Gulbenkian, que diz qualquer coisa como Dostovietsky ou Dostoetvisky. Ainda não tinha acabado de apreciar a sua boa dicção quando ela continua: "O nome do livro é Os Irmãos Karamaninikov". Estragou tudo, acertou no Dostoievsky mas falhou redondamente no Karamazov. Secalhar era uma boa parceira para o Gulbenkian, já os imagino a correr pelos campos, ela de saiote, ele de sandálias e meia branca, a proferirem nomes Russos da pior forma possível. Ou isso, ou a falarem espanhol. Porque o Gulbenkian domina o Espanhol. Na quarta passada surgiram duas senhoras espanholas que queriam saber se tínhamos o "escudo" do nome da livraria, porque o nome era igual ao seu último nome. Nós não temos nenhum brasão da loja ou da família que deu origem ao nome da livraria, mas, antes sequer de eu começar a tentar explicar isso à senhora, o Gulbenkian intervém, lá de trás, destemido. "O ESCUDO PORTUGUES?" ISSO NÃO TEMOS, ESTÀ ESGOTADO!" e a senhora a tentar explicar que queria ver o brasão, e ele a continuar: "POIS, POIS, A HISTORIA DO ESCUDO PORTUGUÊS... NÃO, NÃO HÁ! ISSO ESTÁ ESGOTADO!"
Por falar em Espanhol, ainda esta manhã surgiu um cliente que queria: "Um livro que saiu em Espanha, em espanhol, de um autor que é espanhol mas que mora em Madrid, diz lhe alguma coisa? Não sei se é um bocado vago... Ah, eu li isto em inglês." Portanto, um autor que é espanhol MAS que mora em Madrid? Morar em Madrid afecta a sua nacionalidade? Não sei, isto é uma frase deveras interessante. E não sabe se é vago? Obviamente que não. Não diz título, autor, editor. Vago era se entrasse na loja e tentasse comunicar apenas através de odores. E eu estivesse constipado.

terça-feira, abril 18, 2006

Portanto, A mais I igual a AI?

Fui trabalhar na sexta-feira passada. O caminho para o trabalho foi normal (condutores loucos, cabras a atravessar a estrada, enfim, o costume) mas, quando dobro a esquina para ir abrir a porta da loja, sou logo presenteado com uma senhora a dizer ao seu filho, que chorava desalmadamente: “ENTÂO JOAQUIM MANUEL O QUE É QUE O ANORMAL DO TEU PAI TE FEZ? DOU LHE JÁ UMA CARGA DE PORRADA! PARA DE CHORAR TU TAMBÉM!”. Pensei em parar e reflectir na estranheza da situação, mas depois lembrei-me de que era feriado, estava tudo explicado… Claro que, mesmo que tivesse com algum tipo de dúvidas, o facto da primeira cliente do dia ter me ido perguntar a localização de um livro porque, segundo ela, “SOU PREGUIÇOSA, NÂO SOU CAPAZ DE PROCURAR NADA”, veio logo reforçar a minha tese, era mesmo feriado.
Por muito que tentemos comunicar com certos clientes, fica no ar aquela sensação de que nós não nos expressamos no mesmo idioma. Não são raras as vezes em que repetimos uma frase vezes sem conta e o cliente, como se não fosse nada com ele, ignora completamente o que dizemos. Vejamos o seguinte caso: uma senhora chega ao balcão, calmamente, e pergunta se temos um qualquer livro. Consulto a base de dados, verifico que não temos o livro, e vejo as lojas em que ele existe. Passo então a comunicar à senhora que o livro apenas se encontra disponível no Chiado e no Vasco da Gama. Ora bem, quando eu esperava o lógico “pode encomendar?” ou o “pode reservar lá?”, surge um inesperado: “E em Cascais, há?”. O facto de eu ter dito que SÓ havia no Chiado e no Vasco da Gama não interessa, posso estar a omitir algo, estes livreiros não são de confiança. Algo falhou na comunicação, imagino o cliente a olhar para mim e a pensar: “Ele está à minha frente, e está a mexer a boca, logo deve estar a falar, mas… Estranho… Não ouço qualquer som… É melhor perguntar se há em Cascais, não vá ele enganar-me…”
Depois há também o hábito dos clientes estarem enganados relativamente ao nome de um livro ou de um autor (ou de ambos), e jurarem a pés juntos que tem razão.Uma senhora idosa aproximou-se do balcão e, sem perder tempo, perguntou: “Tem aí mais livros da Amanda Cunha?”. Eu fiquei naturalmente apreensivo, que senhora tão decidida era aquela, nunca tinha ouvido falar dessa autora. Bom, lá fui eu à base de dados e, obviamente, não surgiu nada. Enquanto pesquisava a senhora ia falando: “Gosto muito da Amanda Cunha. Comprei um livro dela e já li todo e gostei muito, gosto muito. Não conhecia a garota, mas agora gosto muito, esta Amanda Cunha”. Disse-lhe, com todo o cuidado, que não surgia nenhum livro dessa autora da base de dados e que, possivelmente, assim numa hipótese remota tipo Sporting ser campeão, que a senhora devia estar a equivocar-se no nome da autora. Eu posso quase jurar que lhe saíram dois chifres da cabeça e que lhe surgiu uma cauda pontiaguda por baixo da saia. O cheiro a enxofre já lá estava. “NÃO TEM?! COMO É QUE NÃO TEM?! ISSO É IMPOSSÍVEL! EU LEVEI O LIVRO DELA! E olhe, gostei muito… MAS TEM QUE TER! NÃO ME ENGANEI! É AMANDA CUNHA!”. Tentei mostrar lhe o monitor para ela ver como não surgia nada, mas ela não quis olhar porque tinha medo que lhe sugasse a alma. Pensei em começar de novo, perguntei-lhe o nome do livro. Se a senhora se recordasse do nome do livro, o nome da autora iria surgir e aí ficava tudo esclarecido. “NÃO ME LEMBRO DO NOME DO LIVRO! SÓ SEI QUE É DA AMANDA CUNHA!”. Nada feito. A senhora insistiu até eu lhe arranjar uma solução adequada. Disse-lhe para voltar à loja no dia seguinte, com o livro que comprou e que aí nós tirávamos todas as dúvidas. “ENTÃO EU VOLTO E O SENHOR VAI VER QUE É A AMANDA CUNHA!” Claro que eu não referi, meramente por lapso, o facto de no dia seguinte estar de folga. Mas isso é irrelevante para o caso. Conclusão, o que a senhora procurava mesmo era Amanda Quick. Quick, Cunha, é normal, são dois nomes tipicamente portugueses. Quantos merceeiros ou talhantes não há por aí com esse nome? “OH SHOR QUICK, DÉ ME AÍ TRÊS COSTELETAS DE BORREGO FACHAVOR!”. Não levo a senhora a mal.
Depois há sempre aquelas clientes que vivem no seu mundo superior, tendo só algum contacto com o resto da humanidade quando vão comprar livros e pensos higiénicos. Bom, sendo que a parte dos livros me toca a mim (vender pensos seria, admito, interessante, acho que há terreno para explorar nesse mercado, para quando os pensos com música?) lá tive de atender uma dessas clientes. Queria o livro “NEW POOL DESIGN” para a filha. Depois de me dizer o nome do livro, perguntou arrogantemente: “Mas sabe escrever?”. Tocou num ponto sensível. Esta pergunta, para quem tem a quarta classe tirada à noite (e com cábulas) dói muito. Lá tive de explicar à senhora que não sabia e que, aliás, nenhum dos meus colegas sabe. Ler e escrever não são factores preferenciais para o trabalho numa livraria. Um ou dois de nós ainda arranham a leitura (a mim, custa me ler palavras com LH e NH, mas ainda me safo), mas escrever? Ninguém sabe. Estas pessoas, que vão para as livrarias a pensar que sabemos ler e escrever… Como é que é possível viver nessa ilusão? Os meus mais sinceros pêsames.

domingo, abril 02, 2006

A Busca da Verdade

Ia eu começar a escrever quando surge algo no horizonte que me distrai complemante. Amigos, eu já vi muita coisa. Muita mesmo. São demasiadas horas a espreitar para fora deste aquário sem água a que chamam loja. Mas, ver uma rapariga a passear dentro da loja, enquanto vai lendo alguns livros, com um bocado de cartão colado às costas e que se estende uns valentes 75cm acima da sua cabeça, com publicidade à série "Desesperate Housewives" é algo digno de ser visto. Aqui o meu colega Gulbenkian, este verdadeiro raio de luz ambulante com a sua camisola amarela, não queria acreditar nos seus olhos. Pobre rapariga, parece saída de uma banda desenhada. Só que esqueceram-se de lhe tirar os balões das falas. Devem pagar bem, é tudo o que digo.
Não há nada como clientes enraivecidos. E se há coisa que os deixa fulos é quando lhes passam à frente na fila para pagar. É compreensível. Se por acaso atendemos alguém que se esgueirou sub-repticiamente para a frente da fila, começa logo uma discussão. "OH FAXAVOR EU TAVA PRIMEIRO, ESTE ... "SENHOR" PASSOU ME Á FRENTE!" logo seguido de um "DESCULPE! EU ESTAVA PRIMEIRO, NÃO TENHO CULPA QUE TIVESSE AÍ A DORMIR!". As discussões atingem por vezes níveis bastante perigosos. E eu aqui, atrás do balcão, a presenciar tudo calmamente. Até à semana passada. Atendi uma cliente, e surgiu logo um envervadíssimo "EU TAVA PRIMEIRO!" da senhora do lado. Surgiu a resposta e a contra resposta. E eu já a pensar em ir buscar as pipocas para assistir à discussão. Mas eis senão quando as senhoras, em vez de se degladiarem até à morte, se unem contra mim. "Peço imensa desculpa, mas foi aqui este "SENHOR" que me chamou para ser atendida" ao que a outra cliente respondeu "Pois, não estão com atenção, é o que dá". A outra cliente assentiu e continuou: "Realmente, é sempre a mesma coisa...". E ali ficaram, a olhar-me com desprezo, enquanto despejavam todo o seu ódio em mim.
Na semana passada, um cliente comprou um livro da colecção Para Totós. Até aqui tudo bem, não fosse o facto do dito cliente ter chegado a casa e ter reparado que afinal não era aquele que ele queria. Então o que é que ele faz? Liga para a loja. "Ah, bom dia. Eu comprei aí um livro chamado Internet Para Totós, mas o que eu queria era Informática Para Totós." Tudo parecia correr bem, até ele dizer "Eu fui atendido por um rapaz simpático, com uma coisa no pescoço." Suponho que ele estivesse a falar do meu fiel identificador. Que todos usamos. Quer dizer, todos menos a Feiticeira. E O Santo, porque tem o pescoço sensível. Acho que era disso que ele estava a falar. Ou disso ou da minha cabeça. Acho que é normal apelidar, tanto ao identificador como à minha cabeça, de coisa. Claro que a parte do "simpático" foi a parte mais chocante para os meus colegas.
Estava eu no balcão a tentar trabalhar quando vejo um homem e uma mulher a segurarem uma caixa. Pararam junto ao balcão, sem largar a caixa e mantinham um sorriso tipo Barbie. Não se mexiam, nem sequer pestanejavam. Pensei que fossem dizer: "Take me to your leader", mas não, pediram-me licença apenas para deixar a caixa no back office, sempre com os olhos esbugalhados. Estranho, pensei eu e mandei os entrar. Lá deixaram a caixa e partiram, como se nada fosse. Quando fui ver o conteudo da caixa tudo fez sentido. Eram livros de Cientologia, a religião inventanda por L. Ron Hubbard. E quem é L. Ron Hubbard? Não sei, não interessa, mas aqui diz que vendeu 120 milhões de livros. Ena. Em Hollywood está na moda, e isso não é dizer pouco. Foi aliás, a razão pelo qual Isac Hayes (o Chef) abandonou o Southpark, o que só por si constitui motivo suficiente para não gostar desta religião.
Por falar em religião, o livro da Alexandra Solnado traz à loja personagens novas. Na segunda-feira passada estava ainda a tentar acordar quando uma senhora se aproximou do balcão e perguntou se tínhamos a Limpeza Espiritual. Como é que poderíamos ter? É um verdadeiro bestseller. A senhora ficou bastante desiludida. Então começou a ver outros livros, e acompanhava a leitura de cada livro com a pergunta: "Também é de limpeza espiritual?" E a cada livro, a mesma pergunta. Chegou inclusivamente a pegar num livro do mesmo formato do livro Limpeza Espiritual e perguntou se era de limpeza espiritual. Quando confrontada com esse facto, perguntou: "Então é sobre quê?". A minha colega pegou no livro, olhou para a capa e viu o título Como Contactar o Seu Espirito Guia. E disse: "Este é para contactar o seu espírito guia". Pelo título ninguém ia lá. A senhora respondeu prontamente: "Ah, então é isso! Mas não tem limpeza espiritual?". Depois virou-se para os livros da Louise Hay. Mostrei-lhe todos os que tínhamos, mas ela já tinha tudo. Queria um dela que falasse de limpeza espiritual. Não temos. Então começou a tirar livros ao calhas da prateleira e a perguntar: "Também é da Louise Hay? Também é dela? E este?" Calculo que ler não fosse o forte dela.

domingo, março 26, 2006

Estou Aqui Para Ajudar

Que melhor razão haverá para fazer um novo post do que um novo livro da nossa amiga Alexandra Solnado? Poucas, meus amigos, poucas. Desta vez, depois da brilhante Limpeza Espiritual temos a Alma Iluminada. E não se pense que é iluminada por um qualquer candeeiro do Ikea do mundo espiritual. Não. É mesmo por Jesus, a luz maior do universo. Neste novo livro, a autora relata mais uma vez as conversas que vai mantendo com Jesus. Por exemplo, no dia 22 de Maio de 2005, ela vinha no avião a caminho de Lisboa quando foi contactada por Jesus, que lhe transmitiu mensagens de amor. Eu, sinceramente, se fosse contactado por Jesus a bordo de um avião começava logo a pensar o pior: “Daqui Jesus, over. É só para avisar que o avião vai cair. Vemo-nos daqui a uns instantes, over.” Alexandra Solnado, sempre actual, debate o tema das crianças Índigo. Numa das suas viagens à nave (?) de Jesus, ela diz que ficou assustada com os seres pequeninos que lá se encontravam, porque, segundo ela: “Foi aí que morri de medo. Pensei que fossem extraterrestres. Eu morro de medo de extraterrestres.” Se eu fosse com Jesus a qualquer sítio do Universo, não teria medo de nada. “Ah e tal, sou mau e mais não sei quê, sou extraterrestre e tenho uma sonda…” E eu diria: “Ah sim? Este é Jesus, o todo Poderoso. Anda sobre a água e tudo, mostra-lhes J!” Não tinha medo de nada. Os seres pequeninos não eram extraterrestres. Eram crianças a ser treinadas para virem para a terra e começarem uma nova era. É parecido.
No dia 27 de Setembro de 2005, pelas 17 horas, a autora ouviu uma voz. Assolada por dúvidas, conta o que fez:”Pedi a Jesus para me dar um sinal de que era Ele que estava a falar comigo, esperei um pouco e, de repente, caíram folhas cristalinas dentro do meu ouvido.” É normal que a autora queira confirmar a identidade de quem a contacta. Não seria a primeira vez que, pensando estar a falar com Jesus, estava na realidade a falar com Tozé, mecânico da Brandoa que viveu entre 1918 e o ano 1999. Obviamente que Tozé não lhe serve de muito no que toca a questões metafísicas, mas dá mesmo muito jeito quando ela fura um pneu. Acontece por vezes ela perguntar “Existe vida depois da morte?”, pensando estar a falar com Jesus, e Tozé, como no anúncio do queijo, responde: “Para motores onde o pistão é mudado com muita frequência o óleo ricinado é melhor devido à melhor estabilidade de temperatura na cabeça do cilindro.” Nunca mais a enganaram numa oficina.
Dia 19 de Outubro, numa das aulas dos vários cursos que administra, Alexandra Solnado foi contactada por Jesus. Imagino uma aluna: “Stôra, oh stôra, o Toni está puxar me os cabelos!”, ao que respondia outra colega: “Chiiiuuuuu que ela está a falar com Jesus! Agora não pode!”. Jesus, depois de lhe transmitir mais uma poderosa mensagem, diz-lhe para ensinar isto na sua aula. Ser professor assim não custa nada. “Então colega, preparaste a aula de hoje?”, “Epá, nem por isso, mas agora no intervalo vou ser contactado por Jesus e ele dá uma mãozinha.”
Depois há aqui um capítulo que eu tenho a certeza que o Papa Bento XVI iria adorar, no qual Jesus aborda o tema do sexo. E, além de defender o acto sexual e o orgasmo, defende a masturbação. Já estou a ver o Papa a ler isto durante o pequeno-almoço e a cuspir o café por cima dos Cardeais todos. Segundo a autora, Jesus diz que, quando o casal atinge o orgasmo: “a explosão dá-se. E nós vemos aqui de cima. E aplaudimos.”. Isto explica muita coisa. É também dito que o orgasmo é uma maneira de abrir o canal para conseguir a ascensão da alma. Como se os homens já não tivessem frases de engate suficientes, surge aqui mais uma alternativa, e ainda por cima de teor religioso. Vai ser um sucesso.
Por em Jesus, tive uma conversa surreal com um cliente na semana passada. Ele chegou ao balcão e perguntou: “Tem um livro, não sei bem o título, é qualquer coisa como Jesus não mandou vir as costeletas, ou qualquer coisa.”. Muito bom, pensei eu. Pesquisei na base de dados, não surgiu nada. Ele não ficou convencido: “E então Diz a Jesus que já se acabaram as costeletas, não?” e eu voltei a pesquisar, e nada. Disse-lhe que tinha apenas feito a pesquisa com as palavras “Jesus” e “costeleta” e não surgia mesmo nada. Nesta altura já estava outra cliente junto ao balcão à espera de ser atendida, e deviam ver a cara de espanto da senhora quando testemunhou a seguinte conversa:
- Então e Jesus comeu as costeletas?
- Também não.
. E Jesus e costeletas, ou será entrecosto?
- Já pesquisei com Jesus e Costeletas, e não surge nenhum livro que contenha essas duas palavras.
- E só Jesus?
- Assim surgem muitos.
- Pois, não é grande ajuda. E só costeletas?
- Surgem aqui 3 ou 4, mas nada relacionado com Jesus.
- Posso ver?
- Claro.
- Pois, está aqui costeletas, como cozinhar costeletas, mas nada de Jesus. Sei que é qualquer coisa com Jesus e costeletas, não sei se tem a ver com Jesus comer costeletas, não sei.
- …
A esta altura a senhora já esfregava os olhos para ter a certeza de que estava a presenciar aquilo. Eu sei qual era o livro que o senhor procurava, “Quando é que Jesus traz as costeletas?”, mas nós não o comercializamos.
Há uma frase que os clientes dizem com bastante frequência e que me dá alguma vontade de rir, “Pode ajudar-me?”. ´É que se vissem o ar de desespero com que dizem a frase, parece que o mundo está para acabar. .
- Pode ajudar-me?!
- Claro, qual é o título do livro?
- Não, não é isso, a minha filha está presa num castelo em chamas!
Claro que também temos os clientes que duvidam das nossas capacidades e dizem: “Não sei se me consegue ajudar…” Lá está, a dúvida logo no inicio da conversa. O “Será que me pode ajudar?” também surge de vez em quando, o que me dá vontade de responder “Não, isso só vai lá com um profissional”. Raramente há clientes que dizem: “Vamos lá ver se é o senhor que me vai conseguir ajudar.”. Eles lançam o repto, desafiam as nossas capacidades. Não há outra saída senão responder afirmativamente ao desafio. O problema é que aí sujeitamos a que a resposta do cliente seja: “É que eu tenho aqui um sinal, com uns cabelos e um bocado de pus, ora toque lá, veja se é normal.”

terça-feira, março 21, 2006

Olho Mirolho

Este dia do Pai que passou foi demais. E não foi só pela excelente prenda que a minha filha me deu. Tem bom gosto a criança, reconhece boa literatura quando a vê. Infelizmente não passei o dia todo com ela como queria. Tive que vir trabalhar. E acho que nada me podia preparar para esse belo dia.
Primeiro, e antes de mais nada, devo agradecer à Coca-Cola. Eu gosto de Coca-Cola. Aliás, sou viciado. Mas, porem 6 ou 7 jovens de flores na mão, a oferecerem flores aos Pais e depois a baterem palmas estridentemente já é passar dos limites. Abordavam o possível pai. Davam-lhe uma flor. Batiam palmas. Pai. Flor. Palmas. Devo ser sincero, se oferecessem Coca-Cola, tinha lá ido. Várias vezes. Mas, flores? Não. Aquilo era mesmo irritante. Só sei que às tantas, o número de pessoas a bater palmas ia diminuído. 7. 6. 5 e por aí fora, até ficar só um. De certeza que foram perdendo unidades à medida que iam incomodando as pessoas com aquelas palmas irritantes.
Para tentar me abstrair das palmas fui arrumar a loja. Mal pego no primeiro monte de livros reparo numa fita cor-de-rosa, daquelas de usar ao pescoço com as chaves. Não lhe toquei, continuei a arrumar. Passado mais de meia hora ela continuava imóvel no mesmo local. E olhem que o local não era agradável, por isso comecei a desconfiar. Perguntei à minha colega se ela tinha visto alguém deixar ali aquela fita, e antes sequer dela responder surge a voz de uma cliente que se encontrava de costas para nós: “SECALHAR DEIXARAM ISSO AÍ PARA VER SER ARRUMAM A LOJA!” num tom altamente agressivo. Até me assustei. Secalhar era para ter piada. Não percebi. Claro que a senhora foi presenteada com um belo olhar redutor da parte dos funcionários da loja. Somos um público difícil, devo admitir.
Por falar em olhar, estes clientes do Dia do Pai são levados da breca. Que bela pandilha que por cá passou. Uma cliente queria oferecer ao pai um livro qualquer de Recursos Humanos. Lá me disse o título e lá fui eu à procura. Digamos que era mais fácil o Marlin encontrar o Nemo do que eu encontrar o livro. A cliente reparou que eu estava com algumas dificuldades em encontrar o dito livro e deslocou-se até à secção onde me encontrava. Chegada ao pé de mim, lança a seguinte pérola: “Secalhar é melhor ajudá-lo. Sim, porque dois olhos são melhores que um! Ah ah ah ah!”. Bem que a minha mulher me disse para não usar a pala no trabalho. 2 olhos? 2+2=2? Hmmmm… Secalhar tinha um olho de vidro e não reparei. Não sei. Prefiro não aprofundar esta questão, há clientes que pura e simplesmente me assustam.
Muito gostam os clientes de arranjar sinónimos para tentar dar a volta à situação. Veja-se uma cliente que, ao encontrar um exemplar do livro que desejava, achou que este não estava em condições. Então, com todo o direito, perguntou: “Desculpe, é o único?”. Respondi que sim. E o cliente: “Não tem outro?” Não, respondi eu. Ser o único ou não ter outro são coisas completamente diferentes. Tal como os amigos dela. Levou dois livros e pediu para embrulhar. Depois de serem embrulhados e quando estavam prestes a ser remetidos para o respectivo saco, a senhora intervém: “Dê-me outro saco! É que os livros são para pessoas completamente diferentes!”. Isto contrasta um bocado com os clientes que habitualmente dizem: “Ah, ponha no mesmo saco que é para dois amigos meus. É que eles são parecidos, aliás, partilham o mesmo tronco e uma perna. São um festim para os olhos.”
E porque é que raio uma cliente, estando entre o balcão e uma mesa com livros, para me deixar passar encolhe as costas e estica o rabo? Tudo bem, ela tinha uma mala às costas, o que podia atrapalhar a minha passagem. Mas ela devia ver o rabo dela ao espelho e ajustar as prioridades no que toca a encolher-se para ceder a passagem. Mais um bocado e eu não estava aqui para contar a história.
Mas é sempre bom ver pais e filhos a passear, felizes. Especialmente quando tenho que ficar aqui o dia todo e a minha filha em casa a queixar-se disso. E há famílias engraçadas. Um pai, com o filho, que não devia ter mais de ano e meio, às cavalitas. O pai, todo orgulhoso, mostrava ao mundo a t-shirt dos Ramones do filho. E este chorava, chorava como se não houvesse amanhã. Eu ainda pensei que o pai fosse entoar o Blitzkrieg Pop para o acalmar, mas não. E eis que, finalmente, a mãe entrega à criança um livro do Noddy, para deleite desta. A choradeira parou. A mãe fez o habitual ar vitorioso que fazem as mães e o pai reduziu-se à sua insignificância. O Noddy venceu mais uma vez. Maldito sejas, Noddy…

sábado, março 18, 2006

Uma Questão de Orgulho

Gostava de ser dono da loja onde trabalho. Ter total controlo sobre que livros entram e saiem sobre os horários, sobre os empregados. Sobre tudo. Seria qualquer coisa como na League Of Gentlemen. Eu teria uma empregada tipo Tubbs, que diria "this is a local shop for local people, there's nothing for you here!". Seria muito bom. Não temos uma Tubbs mas temos a Feiticeira. E, há até quem defenda que é bem melhor. Tenho pena é que ela vá para o Inferno. Estava ela a vender uma Bíblia (foi o Santo que presenciou este episódio porque eu estava no back office) quando, com os seus ternos e delicados modos, deu uma cacetada (termo católico) na dita Bíblia, causando a queda violenta desta no chão. Bom, a Bíblia ficou bastante mal tratada. Aliás, não me lembro de ver a Bíblia tão maltratada deste os tempos da reforma. E a Feiticeira, como se não fosse nada, voltou a por a Bíblia em cima da mesa. Claro que o cliente não levou aquele exemplar, tendo a Feiticeira que ir buscar outro. Já no outro dia, surgiram dois clientes que queriam uns livros relacionados com Engenharia. Claro que a resposta da Feiticeira foi "AH ISSO É ALI NOS LIVROS TÉCNICOS". E nem se preocupou em perguntar se procuravam algum título em particular. Ou sequer em acompanhar os clientes para os ajudar na sua pesquisa. Então lá foram os clientes sozinhos, rumo à secção dos livros técnicos. Eu estava por perto a arrumar o esoterismo e ouvi a conversa: "Tsshhhh, que estúpida. Livros Técnicos? Duuuhh que está nos livros técnicos sei eu, não precisava que ela me dissesse" ao que o seu companheiro respondeu: "Que é que estás à espera, estamos em Portugal..." Eu desde já aviso, em nome de todos os portugueses, que não me faço representar pela Feiticeira. Claro que quando me viram a olhar para eles ficaram bastante embaraçados. E fugiram.
Trabalhar numa loja de porta aberta causa algumas situações curiosas. Há uma situação em particular que sucede com muita frequência. Quando a loja está silenciosa, com pouca gente e com a música baixa, ouve-se muito bem os sons que vem de fora da loja, seja a música do centro ou as conversas das pessoas que passam. Um dos efeitos mais peculiares é quando vêm duas pessoas a falar ao longo da montra e o som surge abafado e imperceptível e depois, quando passam na porta, percebe-se perfeitamente tudo o que dizem. Isto torna-se muito mais curioso quando se ouve o seguinte: "blbbllbgllglggll avlvhlahkdlkhvkalvd (som abafado, e de repente) NÃO TENHO CULPA QUE TENHAS LOMBRIGAS E ME TENHA ESQUECIDO DE COMPRAR PAPEL HIGIÉNICO E (novamente abafado) whwhwho fhofhosifshfiosa".
Algo que se repete com frequência são os pedidos de livros ou de autores incompreensíveis. Aí temos várias hipóteses: escrevemos qualquer coisa parecida com o que foi dita na esperança que surja algo parecido, tentamos uma aproximação diferente pedindo ou autor ou editora, ou pedimos que o cliente repita. É muito mau pedir para o cliente repetir. Mas, existe pior. Pedir para soletrar. É o mais baixo que se pode descer. Na segunda passada surgiu um cliente vestido todo de preto, com um sobretudo preto. Parecia o Neo, do Matrix, mas com 40kg a mais. Chegou ao balcão assim sub-repticiamente, e disse: "Olhe, podia ver se tem livros de um autor?" e eu assenti Ele continuou "Sabe, não sei se tem..." e eu já estava mais ou menos a ver o que vinha aí. "O nome do autor e Van lishssshhtsstst?" Com especial ênfase nos "t" e nos "s". Tentei procurar por Van List ou Von Litst (ainda hoje não sei como se escreve) e não surgia nada. Já a entrar em pânico, quase caí na tentação de pedir para soletrar. Mas és um homem ou és um rato, pensei eu, controla-te homem, onde está o teu orgulho? E não perguntei. Quando pensei que ele tinha desistido, vem o temido: "Ah, mas eu preciso de ver outro autor". Disse que sim, que claro que via. Não podia ser pior. Não podia. "Tem o livro do Von Eiseiteicheireich?" Nem de propósito. Consegui safar-me (à justa) com o título do livro. É muita pressão, isto de ser livreiro.
E quando os clientes mentem? Isto parece um título de um daqueles clientes tipo "DOMESTIC ANIMALS GONE WILD!" ou "MOVIE STUNTS GONE WRONG!". Mas acontece. Uma cliente pediu-me um livro ("Qualquer coisa da obesidade ou lá o que é" disse ela) para encomendar para a loja. Supostamente havia um exemplar numa das nossas lojas e eu disse que o encomendava. Até preenchia o papelito janota das encomendas. O que eu gosto de fazer isso. Liguei para a tal loja, afinal não havia nada. Pedi à editora. Qual não é o meu espanto quando a cliente liga furiosa porque foi à tal loja e não encontrou o livro? E depois ainda tem o desplante de dizer que tinha sido isso que tinha ficado combinado. Claro, porque eu gosto de preencher papéis de encomendas por divertimento. E, depois da queixa por telefone, seguiu-se a queixa ao vivo. Foi do tipo "sim, se acha que eu minto ao telefone nem queira ver o que faço ao vivo". Foi do melhor, alguém dê um Óscar à senhora. Ela estava capaz de tudo. Só não me disse que eu lhe tinha dito que o livro tinha asas e lhe daria vida eterna porque não calhou.
Estou destinado a penar atrás daquele balcão...

terça-feira, março 07, 2006

David Lodge

Isto de ser Livreiro tem que se lhe diga. Além de Livreiro, e das mil e umas tarefas que me são atribuídas pelo público em geral, sou também responsável por fornecer informações para todo e qualquer transeunte que queira qualquer coisa em qualquer lado. Sejam os telefonemas constantes para a loja, julgando que estão a ligar para a administração ou informação do centro comercial (o que resulta nuns já habituais: “OH FAZ FAVOR O CONTINENTE ESTÁ ABERTO HOJE?” ou ainda no já clássico “Ai não é das informações? Mas aqui diz que sim. Ahhhh, pronto. Então não é mesmo. Mas pode me dizer se o Continente está aberto na mesma?”) ou os pedidos de direcções ou compra de qualquer produto que se possa imaginar, já nada me espanta. Ainda hoje estava a sair do back Office quando se aproxima uma senhora de mim que diz: “Desculpe, onde é que é a banda desenhada?”. Com mil raios, pensei eu, já deitaram abaixo o sinal com 80 por 30cm que diz BANDA DESENHADA outra vez. Mas, não, ele ainda lá estava. Bom, não me restava outra alternativa que não fosse guiar a senhora através da loja até ao longínquo canto da Banda Desenhada. Chegado lá indico à senhora o local exacto da banda desenhada, e ela responde: “Não, não é isso. Eu queria o Patinhas e o Donald.” Tentei explicar-lhe que isso não tínhamos, mas foi logo interrompido: “Pois, isso sei eu, queria que me dissesse onde é que há isso à venda aqui no centro!” Reparem na brutal inteligência. Chega a uma livraria e pergunta por Banda Desenhada. Claro que era óbvio até para os mais distraídos ou para o George W. Bush que a senhora queria que eu lhe indicasse um espaço que não o nosso onde encontrasse BD. Porque é que ela não disse logo o que queria? Teria poupado tempo e trabalho. E, pior, porque é que raio ela foi atrás de mim pela loja toda, sabendo que nós não tínhamos o que ela queria? Isso é que me intriga. “Deixa-me lá fazer o totó andar pela loja e andar à procura de algo que ele não vende.”
Não faço ideia do que as pessoas pensam de nós. Claro que o facto de, estando a loja em silêncio, um de nós gritar para os outros “O STAVANGER MARCOU AO LILLEHAMMER!!” enquanto saltita e tenta abraçar o colega que se encontra mais próximo (maldita Betandwin…) não dá muito bom aspecto. Mas, o que é que leva uma senhora a dizer ao seu marido, enquanto este estava a ver uns livros de automóveis: “Tira o casaco. Tira o casaco. Tira o casaco, TIRA LA O CASACO, CUIDADO COM O HOMEM!”. O homem sou eu, não havia mais ninguém na loja. Cuidado comigo porquê? Tudo bem, posso estar a ler “Os Mundos Esotéricos de Fernando Pessoa” mas também não é preciso exagerar.
Numa das manhãs que passou surgiu uma cliente bastante interessada em livros de teatro. Depois de apresentar uma lista interminável (da qual só havia dois livros…) ficou para no balcão a observar atentamente um dos livros que lhe providenciaram. Olhou, folheou, olhou um bocado mais. Quando tudo indicava que ela estaria pronta para pagar, lança a seguinte frase: “Hmmmm… Isto é o 3 não é?” A respota surgiu positiva, visto haver um 3 enorme na lombada e na capa do livro. Ela retoriquiu: “Parece-me que deve haver o 1 e o 2.” Que mente iluminada. Isto nem o Paulo Cardoso conseguia prever.
A nossa colega Feiticeira é algo difícil de descrever. Ela está a atender um cliente, e a cada pergunta que vai fazendo aumenta gradualmente o volume da música. Não ouve o cliente bem, passa a ouvir pior. Hoje até me assustei quando ela, para além do seu habitual: “VAI LEVAR ESSE?” ou ainda do “ISSO É PARA LEVAR?” com que brinda qualquer cliente que passe junto do balcão com o livro, hoje tentou hipnotizar um cliente. É verídico. O cliente estava a tentar que ela encontrasse um livro na base de dados, o que se estava a revelar uma tarefa hercúlea. Farta de procurar, pediu ao cliente o nome do autor, olhou fixamente para ele e disse, num tom hipnótico: “VAI ME DAR O NOME DO AUTOR”. Não é “pode me dar o nome do autor, por favor?”. É uma ordem: “VAI ME DAR O NOME DO AUTOR”. Repetiu três vezes, naquele tom hipnótico. Eu, que estava a arrumar as novidades, disse do meio do nada : “DAVID LODGE”, assustando os clientes que se encontravam à minha volta.
Tive uma conversa interessante com um cliente que queria, e passo a citar: "Um livro que tem o Hitler e o Himler a passear na neve”. Já os estou a imaginar “Oh Hitler, isto é que tá um belo dia ahn?”, ao que o Hitler respondia: “É Himmlerzinho, apesar do frio que me congela os ossos, não me divertia tanto desde a chacina de ontem…”. Depois de lhe encontrar o livro, facto que o deixou maravilhado face à fraca informação que me forneceu sobre este, começou a falar comigo sobre o livro de Mao Tse Tung. “Este homem era nojento. Ignóbil. E pior era os que o seguiam. Lá e cá. Aquele Garcia Pereira e o Durão Barroso, de livros em punho, seguidores do Mao. Nojento. Foi responsável por milhares e milhares de mortos!”. Pensei em dizer qualquer coisa como: “O Mao era mesmo mau! Mau, ehehe, percebe?” mas achei que ele não ia entender. Falando em respostas tipo empregado de café, uma das minhas favoritas (que obviamente nunca usei, mas não perco a esperança de ver alguém usar) é relacionada com a religião. Num destes dias surge uma cliente ao balcão que diz, antes sequer de um cordial saudação: “QUERO A CABALA!”. Era genial que alguém dissesse: “Oh minha senhora, mas a senhora ainda nem a começou”, rebolando depois a rir para trás do balcão, perante o olhar estupefacto da cliente. Mas, não, o máximo que aconteceu foi mesmo ir alguém até a secção dos livros religiosos e verificar que não tínhamos nada.
Isto às vezes é pouco emocionante…