segunda-feira, julho 20, 2009

Sabes Que És Livreiro Se...

- Vês um estafeta da TNT na rua e choras porque achas que ele te vai entregar 28 volumes da DLB.
- Não deixas o funcionário dos CTT sair da porta da tua casa enquanto não vais lá dentro "ver se há devoluções para recolher", porque "esses manhosos hoje não se escapam".
- Perguntas às funcionárias das caixas do Continente se elas têm cartão de cliente.
- Utilizas termos de gente rude como "acartar" e "empacotar".
- Procuras as tuas compras no supermercado por editora.
- Tens as mãos e braços tipo funcionário da mina de Aljustrel.
- Sabes distinguir o Rodrigo Guedes de Carvalho do José Rodrigues dos Santos.
- Sempre que alguém se queixa de alguma coisa (tipo dores nas costas ou do estado da nação) dizes que a culpa é "... daqueles capitalistas da FNAC".
- Tens medo que a LeYa te compre também.
-Vês um qualquer gajo de pólo preto na rua e soltas um "tão colega?", enquanto acenas tristemente, como que partilhando a sua dor.
- Passas o tempo todo na praia a criticar os livros que as pessoas estão a ler, irritando solenemente a tua fenomenal companhia.
- Entras em toda e qualquer livraria por onde passes, dentro e fora do país, levando também à loucura quem se encontre contigo.
- Achas autores como Kafka e Dostoievsky demasiado comerciais.
- Só consideras um livro bom quando chega a menos de 3 exemplares.
- Não acreditas que exista boa edição para além da Relógio d'Água e da Assírio & Alvim.
- Quando vês um brasileiro a aproximar-se de ti dizes institivamente que não tens o "Quem Mexeu no Meu Queijo" ou "O Caçador de Pipas".
- Consegues explicar a uma pessoa que "O Caçador de Pipas" é o mesmo livro que "O Menino de Cabul".
- Dizes piadas que ninguém entende tipo "Ahah não te banhas no mar porque tens medo que o Melville escreva um livro sobre ti".
- Consegues dizer com uma cara séria e voz credível que sim, o "Comer, Orar, Amar" é um bom livro.
- Tens o dom de arrumar 3453 livros no sítio onde cabem no máximo 10.

quarta-feira, junho 11, 2008

Antes de Partir

Pensei que tinha fechado o estabelecimento de vez. Até o disse, em voz alta, na livraria, quando escrevi o meu último post: “Agora é de vez!”. Claro que o cliente que andava a passear ficou a contemplar-me com um ar desconfiado, mas a isso já eu estou habituado.
São dois os motivos que me trazem novamente a este sítio. A saber:
- O primeiro motivo prende-se com o facto de haver cada vez mais colegas de profissão a lerem. E pensar que eu comecei a escrever isto para os meus quatro colegas. Quase 25000 visitas depois, aqui estou eu. Mas, colegas: comentem. Mandem mails, partilhem as vossas experiências e eu até as colocarei aqui, se assim o desejarem. Era uma honra para mim. E para vocês. Mas, comuniquem. Reclamem, por exemplo, se, sei lá, vou dar assim uma ideia completamente aleatória, receberem mal ou não forem aumentados, se estão descontentes com alguma coisa, seja o que for. Venham de lá esses textos.
- O segundo motivo prende-se com a (brilhante) edição do livro “O Livreiro”, para breve. Os textos serão trabalhados e deste blog nascerá um livro. Penso que uma edição pura e dura não faria muito sentido. Irei aglutinar temas recorrentes, eliminar certas e determinadas referências de cariz pessoal que têm pouco interesse e assim nascerá a edição definitiva d’O Livreiro. Portanto, vós que estais interessados (porque eu sei que estão), digam qualquer coisa ali para o mail.
E de momento é tudo.
Cumprimentos para todos os colegas. Vocês estão aqui. (Sei que não estão a ver mas finjam que eu estou a bater no coração).

sexta-feira, abril 11, 2008

Fonéticamente Perfeito

Existe alguma dificuldade nas pessoas em perceberem porque diabo não vendemos livros escolares. Claro que nós, cidadãos do Mundo, apesar de haver uma outra indicação em contrário, tentamos auxiliar estes pais desesperados na obtenção do que eles tanto desejam. Num pacato Domingo de manhã estava a explicar a uma senhora onde poderia obter os seus livros na zona de Cascais, onde ela era residente. Ela estava contente com a explicação, porque a livraria em causa era relativamente perto da sua casa. Até que um senhor que andava a deambular à volta do balcão decidiu intervir:
- Peço desculpa, eu peço desculpa de interromper, mas eu tenho uma livraria...
Nisto tira o papel da mão da senhora e começa a coçar a cabeça.
- Você já não encontra isto.
A senhora ficou naturalmente preocupada.
- Não encontra, e eu vou lhe dizer como é que vai fazer para comprar isto: ora bem, - O homem começa a fazer uns gestos circulares, quase acertando nos clientes que iam passando e falava cada vez mais alto. - Você apanha a auto estrada, vai até à loja da Porto Editora em Lisboa. Lá compra o primeiro livro. Depois volta para Cascais, apanha o IC19 ali em Sintra e vai à loja da Texto no Cacém, depois volta pelo IC19 para Cascais. É garantido.
- Eu prefiro ir a Cascais... É mais rápido. – A cliente começava a ficar assutada
- Não, não faça isso! Vai para Lisboa, depois volta, vai ao Cacém e volta, e fica logo tratada! Acredite em mim!
O senhor lá foi embora perante o olhar espantado da senhora, que não evitou comentar comigo o facto de estar assustada e perplexa com o itinerário que o senhor lhe tinha traçado. E claro que disse que ia seguir o meu conselho e ir a Cascais. Quem sabe, sabe, e o Livreiro é que sabe.
Outro momento interessante foi protagonizado por uma senhora brasileira que julga se movimentar pela alta sociedade e possuir uma classe inigualável. Primeiro ficou chocadíssima porque não tínhamos a biografia do Eric Clapton (ou Eriki Clapiton), quando já a tinha visto à venda no Brasil. “Tem no Brasil e aqui não!”, disse, chocada. Pois, filha, pensei eu. Com o Dengue já são duas coisas que vocês têm e nós não, é uma maçada. Depois pediu a biografia da, e passo a citar, Rrrraudrey Rrrepburrn, ou Audrey Hepburn para os leigos. Pensei, por momentos, que a senhora ia cuspir um pulmão, tal a dificuldade em pronunciar Audrey Hepburn.
Um dos nossos clientes habituais durante os dias da semana é um senhor cujo discurso se torna cada vez mais imperceptível à medida que vai falando. Ele começa as frases perfeitamente, mas tem um tique que faz interrompê-las com sons do tipo “ahn”, “ohn” e “hum”. O nosso colega Mestre Pitágoras, que entretanto abandonou o barco (e aproveito aqui para desejar toda a sorte do mundo para ele), tentou atendê-lo, e o resultado foi o excelente. O cliente aproximou-se do balcão e fez a seguinte pergunta enigmática: “Bom dia, tem o livro do... OHN?”. O Mestre hesitou e pediu para repetir. O cliente disse: “Aquele livro... HUM?”. Ele ficou sem perceber e o cliente afastou-se e foi ver uns livros. Passado um ou dois minutos voltou. “Tem aquele livro... Aquele foi escrito pelo... HUM?” E o Mestre ficou sem perceber novamente, tendo ido o cliente embora frustradissimo.
Pois bem, esta semana ele voltou e mais uma vez a conversa começou bem, com um discurso claro e perceptivel: “AHN HUN OHN?” Soltou ele quando chegou ao balcão. Bom dia, respodi eu. É que entretanto arranjei um dicionário. “Tenho aqui um cheque do HUM.” Tudo bem, pensei eu.. Até que um cliente, obviamente desconhecendo o fosso onde se ia meter, chamou a atenção desse cliente para um cheque que pendia perigosamente do seu bolso. A conversa, meus amigos, foi épica:
- Olhe, peço desculpa de me intrometer, mas o senhor têm aí um cheque a cair.
- AHN?
- Têm aí um cheque a cair do bolso.
- Ah, muito obrigado.
- Não lhe quis pegar no cheque, ainda aparecia aí o C.S.I e me tirava as impressões digitais.
- HUM? Que é isso?
- Crime Scene Investigation, não conhece?
- Não.
- É um program de televisão.
- SOU UM INTELECTUAL, POR AMOR DE DEUS, NÃO PERCO TEMPO COM ESSAS COISAS AHN? HUM?- Bom, não concordo consigo nesse aspecto, acho que nada tem a ver com intelectualidade, mas pronto.
O senhor do “hum” afastou-se por uns segundos enquanto o outro cliente me fazia umas perguntas sobre livros. Nisto, surge de repente um livro a escassos centimetros da cara do cliente, fazendo o recuar uns passos, assustado.
- Está a ver este livro? – Pergunta o senhor do “hum”.
- Sim... – O outro cliente estava cada vez mais desconfiado.
- Foi o meu patrão que mo recomendou à muitos anos. O meu patrão foi Prémio Nobel do OHN? – Fantástico, pensei eu. O patrão dele foi Prémio Nobel do OHN, seja lá o que isso for. – Uma maravilha. – Finalizou.
Depois saiu da loja, tendo pedido entretanto para nós guardarmos o livro dele, enquanto ia dar uma volta. Logicamente, quando voltou, perguntou o seguinte.
- Tem aí guardado o meu OHN?
E assim anda a Livraria, estranha como sempre.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

O Natal, Essa Enfermidade

Intensas reivindicações e eventos anómalos depois, surjo aqui, ainda não recobrado, para vos deixar mais uma breve crónica sobre o período mais temido por alguém que alguma vez tenha colocado o pé atrás de um balcão: o Natal. Claro que a pluralidade das pessoas deve achar misterioso o facto de eu considerar o Natal como a pior de todas as épocas conhecidas pela humanidade (peste negra incluída), mas a esse tipo de coisas já estou eu acostumado. O grande problema do Natal, caros leitores, são, basicamente, as pessoas. Porque com as pessoas surgem ainda mais pessoas tresloucadas e fora de si, surgem pessoas apressadas, demoradas, enfim, todo um manancial de seres (às vezes pouco) humanos, aqui na loja.
Temos a senhora que quer dar livros de arquitectura a um arquitecto. O normal. Pede-me, educadamente, um livro sobre arquitectura antiga. Quando lhe mostro um livro sobre igrejas medievais, sua construção, plantas e tudo o que tenha a ver com arquitectura, ela perde as estribeiras: “IGREJAS? ISSO NÃO TEM NADA A VER COM ARQUITECTURA!”. Obviamente que não tem, e o erro foi meu. Porque toda a gente, incluindo eu, devia saber que as igrejas são feitas a partir da arte da pastelaria, e não da arquitectura. Isso de arquitecturas e engenharias é tudo balelas. É só mudar um ou dois ingredientes e, em vez de uma bola de Berlim, temos uma Sé de Lisboa.
Raramente as pessoas sabem o que querem. Esta cliente em particular apenas sabia que queria um livro passado em África, não sabendo especificar nada mais. Na impossibilidade de ajudá-la, ela pergunta: “Então diga-me lá, onde é que é a zona de África?”. Não percebo como é que ela não viu logo, com os leões e as dunas.
A língua portuguesa é traiçoeira, já nós o sabemos. Mas os portugueses conseguem ainda torná-la mais intrincada. Temos o senhor que pretende adquirir livros de “ORALGAMI”, que será origami feito com a boca, penso eu. Ou então algo de cariz sexual que prefiro nem saber o que é. Temos também o senhor que procura o segundo volume do livro Eragon, de seu nome “ELDESPE”, onde o autor preferiu optar por caminhos de índole, cariz ou natureza sexual. E por fim, temos a senhora que procura uma prenda de Natal para a sua filha: “Eu queria aquele livro, aquele para miúdas de catorze anos, o Prepúcio, sim, é isso, chama-se Prepúcio e é assim para adolescentes, elas gostam dessas coisas, sabe o que é?” Sei, mas o que a senhora quer chamava-se Crepúsculo. Não sei até que ponto as raparigas de catorze anos deveriam gostar dessas coisas, mas, estamos no século vinte e um, eu já não digo nada.
Nesta altura natalícia a loja está cheia de colaboradores. Raramente partilhamos todos este espaço ao mesmo tempo, portanto há que saber organizar as tarefas. O nosso caro Professor Bond (mais uma vez, parabéns pelo terceiro lugar na categoria de melhor blog de literatura de 2007) estava firme e hirto nos embrulhos, como é seu apanágio e costume, quando eu fui abordado por duas jovens excitadas que queriam algo como “o diário do meu pipi”. Sabendo que o elas queriam era “O meu Pipi”, livro proveniente do blog com o mesmo nome, por momentos não perguntei, em voz alta e com a loja cheia, “BOND, VISTE O MEU PIPI?”. Seria, sem dúvida, um momento curioso.
Gostei igualmente de uma cliente que queria trocar um livro porque alguém “TEVE O DESPLANTE DE ME OFERECER O LOBO ANTUNES. EU ABOMINO O HOMEM, ESTÁ A VER? ODEIO. NÃO O SUPORTO: ESTÁ A PERCEBER? NÃO POSSO COM ELE!” Eu estava prestes a oferecer-lhe o dicionário de sinónimos para ela continuar a demonstrar o seu desagrado com o Lobo Antunes, mas ela foi-se embora (sem trocar o livro) enquanto continuava a barafustar pela loja fora. Eu até a compreendo. O Lobo Antunes tem muitas letras nos romances dele, e palavras, e o gajo, com a mania, ainda lá tem frases! O convencido que um gajo tem de ser para fazer uma cena dessas. Enfim
A minha cliente preferida deste Natal não poderia deixar de ser a senhora que procura livros de culinária para oferecer à sua filha, ainda criança. Estava tudo a correr pelo melhor até eu sugerir o livro “A Vóvó Ensina-te a Cozinhar”. A senhora arregalou-os olhos e disse: “ACHA? ACHA MESMO? ALGUMA VEZ EU DARIA ISSO Á MINHA FILHA! ISSO É UMA VERGONHA, ESSES LIVROS SÃO UMA VERGONHA!”. Eu não devo ter conseguido esconder o meu espanto, e ela continuou: “ESSES LIVROS RETRATAM A AVÓ A COZINHAR E, IMAGINE-SE! A PASSAR A FERRO! ALGUMA VEZ A AVÓ DELA PASSA A FERRO?! ELA TEM DEZENAS, DEZENAS DE CRIADAS! SE AS CRIANÇAS VISSEM UMA AVÓ A PASSAR A FERRO ELAS TINHAM UM CHOQUE TÁ A VER? UM CHOQUE! ALGUMA VEZ, A AVÓ A FAZER SEJA O QUE FOR!”. Depois passou a explicar o que queria: “EU QUERIA UMA DAQUELAS COISAS; DAQUELES LIVROS DE CULINARIA PARA JOVENS, TÀ A VER? O MEU FILHO FOI PARA BEJA ESTUDAR E EU DEI-LHE O LIVRO E DISSE: TOME, QUERIDO, TOME LÁ ISTO E FAÇA UNS HAMBURGUERS OU QUALQUER COISA!” Que mãe atenciosa, pensei eu. Isto sim é espírito de Natal.
Boas Festas para todos.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Quase Natal

É com muito gosto, que, depois de conseguir sair daquele labirinto a que chamamos livraria, venho aqui deixar mais um singelo post.
Antes de dar início a mais uma crónica de carácter, cariz, ou outros sinónimos que se consigam recordar, natalício, queria dar as boas vindas ao nosso colega Mestre, num regresso apenas passível de ser equiparado ao regresso do próprio D. Sebastião. Aparentemente o nosso douto colega decidiu deixar os ares da cidade, e nós achamos que ele fez muito bem. Realmente fazia nos falta alguém que arrumasse uma estante e respectivas gavetas por tema, depois por editora, em seguida por autor, depois por cor, a seguir por sabor e finalmente por odor. Claro que há uma acesa discussão relativamente ao que vem primeiro, se o sabor ou se o odor, mas até chegarmos a uma conclusão ele continua a arrumar à sua maneira.
Já o nosso excelso colega Gulbenkian, agora mais arredado dos seus princípios humanitários (consta que teve quase para pedir o Fernando Nobre em casamento), tem na sua mente que o livro Timbuktu, de Paul Auster, é a solução para todos os males de que padece a humanidade.
- Olhe, queria um livro daqueles de auto-ajuda, para a pessoa se sentir melhor...
- Para se sentir melhor? Timbuktu. Depois de ler este livro sente-se logo melhor, é uma história lindíssima.
- Mas é sobre o quê?
- É sobre um vagabundo que morre e depois o cão dele anda à procura dele e morre também. Lindíssimo. Poético, até.
- ....
Duvido que exista alguém nas livrarias por este Portugal fora que tenha vendidos tantos livros do Timbuktu como ele.
- Bom dia, queria um livro de desporto.
- Desporto? Ora bem... Timbuktu.
- Timbuktu?
- Sim. É um livro sobre um cão. E os cães correm. E correr é desporto.
As Edições Asa devia começar a dar presentes ao rapaz. Até porque ouvi dizer que ele me vai oferecer um exemplar no Natal.
- Boa tarde, queria um livro de medicina.
- Sim senhora, tem aqui o Timbuktu.
- Desculpe, eu não disse medicina veterinária.
- Ah, mas não deixe o cão da capa enganá-la. Isto é um cão com sentimentos humanos.
Esta livraria sem o Timbuktu basicamente mais valia fechar as portas.
Voltando aos clientes, que é para isso que aqui estamos, gostei muito da senhora que ficou a empatar a fila de pagamento porque queria confirmar se constava nas fotografias do livro da Mocidade Feminina Portuguesa. Compreendo a dificuldade da senhora, com os buços da altura aquilo fica muito difícil de se distinguir.
O Livro de São Cipriano continua a aterrorizar os mais incautos. Especialmente um casal que, ao procurar um livro de esoterismo, quando viu o Livro de São Cipriano (O Verdadeiro Capa de Aço e Letras de Sangue e Páginas de Papel e Pó de Estante e o Raio Que o Parta) me disse:
- Jovem, queima isto. Queima isto, jovem. Não deixes isto aqui.
Eu peguei no livro e arrumei no sítio, dizendo que já estava habituado.
- Não abras isso. Deus te proíba de abrires isso.
Apeteceu-me dizer-lhe que já trabalhava numa livraria, que pior não me podia acontecer.
Também gostei muito de atender um senhor que queria livros de astrologia. Indiquei-lhe o livro do Paulo Cardoso. Apenas porque temos muito e precisamos do espaço para outras coisas. Ele ficou muito espantado.
- Não, eu queria assim algo mais técnico e científico, isto é tudo mentiras. Queria mesmo para ler os astros e ver o futuro, mas assim mais científico e exacto.
Devia apresentá-lo ao Professor Bambo, é destes clientes que ele precisa.
Se há algo de que eu gosto mesmo são clientes adeptos do self-service. Eles vão tirar livros dos expositores mais altos, tentam passar os cartões nas máquinas do Multibanco, tiram os talões das caixas, é uma maravilha. Mas ninguém foi tão longe como uma senhora. Estava no balcão e vejo um cartaz da montra a abanar e por fiquei curioso, passando depois a ficar estupefacto quando vejo um cabelo encaracolado e um casaquinho de velhinha a passar pela montra. Então não é que a intrépida senhora foi montra a dentro para colocar o livro que algum colega tinha tirado para ela consultar? É de clientes destes que nós precisamos.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Tal Como Jig-me Ling-pa disse a Jig-me Gyal-wai Nyu-gu

Há quem se interrogue, e, admita-se, que eu sou pessoa para admitir coisas com uma inusitada facilidade, com toda a razão, onde é que eu ando. Certamente que muitos de vós, imbuídos do mais profundo e benemérito espírito de simpatia, crêem que eu li “O Segredo” e me tornei, assim, com toda a simplicidade, da noite para o dia, num milionário excêntrico. Não, com mais pena minha do que vossa, não ganhei o Euromilhões ou sequer li o Segredo. Até porque por o título de “Segredo” em algo que milhões de pessoas lêem é triste. Se fosse segredo ela não contava a ninguém, a mal-formada. Bom, se alguém enriqueceu foi mesmo a autora e parabéns para ele por explorar, perdão, ajudar milhões de pessoas por esse mundo fora.
Sou rico, isso sim, em experiências e acontecimentos rocambolescos, para deleite do ocasional leitor. Ser rico em coisas dessas não ajuda muito na vida. Já experimentei dizer que vou pagar a prestação da casa com uma história sobre clientes que fazem isto e aquilo. Não resultou. Com a do carro também não. E com a escola da minha filha, também não. E olhem que eram historias das boas. Ao contrário das que vou contar a seguir.
O Dalai Lama esteve cá em Portugal. Consta que disse que há muitas afinidades entre Portugal e o Tibete. Principalmente em termos de invasão chinesa. Como tal, tivemos uma campanha especial sobre o senhor e os seus dizeres, com livros variados sobre o Budismo. Há um em particular que nos tocou a todos pela sua simplicidade. “O Caminho da Grande Perfeição”. Deixo aqui, se me permite, o primeiro parágrafo do prefácio de Sua Santidade o Dalai Lama: “Jig-me Gyal-wai Nyu-gu, que foi um dos mais eminentes discípulos de Jig-me Ling-pa, o grande mestre do Dzog-pa Chen-po Long-chen Nying-thig, proferiu um ensinamento oral sobre Long-chen Nying-thig e o seu discípulo Dza Pal-trul Rinpoche transcreveu-a, intitulando-a KUNZANG LA-MAI ZHAL-LUNG”. Cá está, eu proponho desde já este livro como parte integrante do plano nacional de leitura. Qualquer criança em fase de aprendizagem adorará ler passagens como esta.
Muitas pessoas não ficaram indiferentes à vinda de Sua Santidade. Os livros venderam-se bem e levantaram a curiosidade de algumas crianças. Uma delas perguntou à mãe quem era o Dalai Lama. E a conversa foi a seguinte:
- Mãe, quem é o senhor careca?
- É o Dalai Lama.
- Quem é o Dalai Lama?
- É o líder do Budismo.
- O que é o Budismo?
- É uma religião.
- Mas o que é que ele faz?
- Ele é o líder religioso.
- O que é isso?
- Então, ele é líder dos recursos humanos do Tibete.
Como toda a gente sabe, o Dalai Lama tinha passado antes pela contabilidade e pelo marketing, mas foi nos recursos humanos que encontrou a sua vocação.
Na semana passada, devido à transladação dos restos mortais de Aquilino Ribeiro, surgiram novas edições dos seus livros, e com eles uma acrescida procura das suas obras. Um cliente, ciente do que se passava, ligou para cá:
- Bom dia, tem aí o Malhadinhas?
- Ainda não recebemos a reedição.
- É que hoje vão lhe levantar o esqueleto, e mandá-lo lá para o outro lado, e enquanto mexem nos ossos vão ler o Malhadinhas.
- Ah…
Que maneira tão carinhosa de se referir aos restos mortais do grande Aquilino.
Não quero parecer paranóico, mas acho que o Jel ligou para aqui a gozar comigo. Ligou para cá um cliente, com a voz exactamente igual a um dos bonecos do Jel, com a seguinte conversa:
- Ora então bom dia.
- Bom dia.
- Tem prosas?
- Provas? De que ano?
- Prosas. Provas. Prosas.
- ??
- Então. Há poesias. E há prosas. Tem prosas?
- Sim, temos livros em prosa. Que autor procura.
- É um qualquer, que é para oferecer. Mas tem que ser prosas. Tem ai prosas?
- Sim, temos variados livros em prosa, é só uma questão de o senhor vir cá e ver o que lhe parece mais adequado.
- Mas é prosas?
- Exacto.
Jel, se foste tu pá, quase me apanhaste. Se não, foi apenas mais um acontecimento que não servirá para me pagar nada. Nem um queque.

sexta-feira, julho 27, 2007

Tornar-se Humano

As férias são sempre algo positivo. Permitem-nos olhar para trás, para além da névoa fresca do passado recente e analisar tudo o que se passou de modo mais calmo e eficaz. Há quem diga que as férias também dão para descansar, mas eu acho que isso são mitos do calibre, por exemplo, de clientes ao que são, ao mesmo tempo, simpáticos, gastadores, educados e agradecidos. São mitos, pura e simplesmente mitos.
Confesso que creio piamente na existência de clientes que decoram o que têm de dizer antes de passarem aquela entrada de madeira velha e se dirigirem ao devoluto balcão. Depois, sendo confrontados com alguma pergunta, perdem as estribeiras. Uma cliente chega ao balcão e despeja, sem mais nem menos, um nome de um pintor. Acontece que, em livros de arte (tal como noutras secções…) por vezes o nome do pintor é o próprio título do livro. Perguntei se era esse o título do livro que procurava. A cliente ficou ofendidíssima, e respondeu: “ELE NÃO É UM TÍTULO, É UM AUTOR!”. Quem me acode, pensei eu, que já ofendi a humanidade do tal pintor. Chamei-lhe título, o que, assim como assim, é uma ofensa gravíssima.
O que me leva a outro acontecimento. Outra cliente (qualquer dia faço uma estatística do número de homens e mulheres que figuram aqui neste espaço…) vem a andar para o balcão, acabada de entrar, com a loja praticamente vazia. Éramos dois no balcão e ficámos a aguardar que a senhora chegasse. Assim que o fez, dissemos logo bom dia e ficámos à espera do seu pedido. Ela faz uma pausa de cinco segundos e diz: “HÁ AQUI ALGUMA PESSOA QUE ME POSSA AJUDAR?”. O que foi uma pena, porque eu gosto de ajudar os clientes, mas pessoas, a trabalhar numa livraria, não costuma haver. Há uma pessoa, o Gulbenkian, esse poço de ética (consta que rejeitou um projecto com o comediante famoso e tudo, devido à ética), mas naquele momento, pessoas, nem vê-las. Lá teve de se contentar com a nossa ajuda. Dá para alguma coisa, mas não se pode comparar ao ser ajudada por pessoas. Como eu a compreendo.
Depois temos o executivo que espreita quatro ou cinco vezes enquanto estou a fazer o pagamento no Multibanco. Dobra-se todo sobre o balcão, para ver o que eu estou a fazer antes, durante ou depois. E tudo porque eu vi que era um cartão que tinha desconto, e fiz o desconto sem ele pedir. E é assim que ele agradece. Sempre a espreitar para trás do balcão, sempre a olhar para mim. Mas coragem para dizer alguma coisa? Até depois de receber o pagamento, de conferir o talão, ele volta para trás e vai espreitar. Perguntei se necessitava de mais alguma coisa, disse que não e fugiu. Totó. Nem era homem para dizer, na minha cara, que eu lhe estava a clonar o cartão. Alguma vez eu clonava o cartão dele? Ainda apanhava a totózice dele, aposto que aquilo é contagioso. Sou muito selectivo nessas coisas. Totó.
Já o nosso colega mais recente também tem a sua apetência para apanhar personagens. Numa das noites que estive com ele, apanhámos uma mãe e respectiva filha capaz de nos deixar com uma irresistível vontade de dar uns goles na benzina que temos no back office. Primeiro era o tom de voz caracterísco daquelas personagens, capaz de rebentar os tímpanos até para um admirador confesso de música aos berros cantada por gajos aos berros. Depois, vem a mãe ao balcão perguntar se o livro do Bill Bryson, “Breve História de Quase Tudo”, é tanga. Está lá escrito atrás que ganhou um prémio para melhor livro científico. Obviamente que é tanga, aquilo só está ali para enganar. Depois lembraram-se de comprar uma enciclopédia que tinha na capa várias personagens historicamente relevantes. Chegaram ao balcão, pousaram a enciclopédia, e o que se passou foi o seguinte: “Mãe, eu sei que estes são!” Diz a filha com cerca de 19 anos. “Ah sim então diga lá”. E começa a filha, apontando para o Infante D. Henrique, “Este é o Afonso Henriques!”. A mãe arregala-lhe os olhos. “Ah, então é o Colombo!”. A esta altura já eu e o meu colega estávamos a ir buscar as pipocas e a Coca-Cola, porque isto é entretenimento da melhor qualidade. Penim, põe os olhos nesta mãe e filha, está aqui o futuro da SIC. Em seguida, apontanto para Napoleão e Wellington: “Este é o Napoleão, este é o Bonaparte!”. Obviamente, Napoleão Bonaparte era o estado de fusão deles, tipo Dragon Ball, aliás, Napoleão é considerado o Son Goku da história francesa. Até nosso Senhor Jesus Cristo não escapa: “Este é Jesus Cristo. Ou não?”. É normal a confusão, porque sem a cruz nas costas podia ser só um gajo barbudo de toga branca. Até que a mãe aponta para Mandela e diz: “E este sabe quem é, Martoca?”. A jovem olhou, pensou (quer dizer, isto é algo que eu afirmo sem total certeza) e disse: “Ah. É um prémio Nobel.” A mãe sorriu. “É o George W. Bush! Prémio Nobel da Paz”. Até nos engasgámos com as pipocas. Bush, Mandela, são parecidos em tudo. Desde os ideais políticos à cor da pele, são praticamente indiferenciáveis. Tentaram (e vamos colocar aqui todo o nosso ênfase, por favor, no tentaram) preencher o folheto para aderirem ao nosso cartão de cliente. Ninguém sabia bem a morada, e muito menos o código postal. Aparentemente o novo formato de código postal é totalmente desconhecido para elas. “PONHA AÍ UM QUALQUER QUE ISSO VAI LÁ DAR Á MESMA!” Grita a mãe para a filha, do outro lado da loja. Admira-me como é que elas próprias conseguem chegar a casa.

quarta-feira, junho 13, 2007

Tenho o Curso Todo

Vivemos numa época conturbada. Não que isso tenha alguma coisa a ver com o que vou aqui escrever de seguida, mas fica bem dizê-lo, faz-me parecer atento e crítico em relação à sociedade onde me insiro. Mas, no fundo, eu sou apenas mais uma alma atrás de um balcão, sujeito a mil e uma maleitas que podem (e irão, certamente) atingir-me, para gáudio de quem está desse lado, sentado em frente a um monitor. Ou em pé, todo nu, barrado com nutella (Nunca se sabe). Assim sendo, torna-se imperativo relatar o acontecimento seguinte, tentando sempre evitar o temível pensamento de que o senhor em questão não foi enviado por algum de vós, sequiosos que estão por mais relatos aqui do vosso escriba.
Estava a ser uma tarde calma. O gerente tinha ido tratar dos seus assuntos de gerente, e eu e o grande Santo aqui estávamos, em amena cavaqueira. Até que o senhor Santo decidiu ir encher o bandulho com o seu lancezinho, deixando-me aqui à mercê de qualqer maníaco que pudesse aparecer.
Quase de imediato surge um senhor de cabelo grisalho, barba por fazer, dentes a variar num bonito tom entre o preto e o castanho, um distinto e acolhedor bafo a tinto de garrafão e uma vestimenta a combinar.
“Eu é que sou o dono disto!” – Grita ele, ao entrar na loja. – “Eu tenho cartão daqui! Não me conhece?”. Muito bom, pensei eu, logo agora que estava sozinho apanho com um senhor que tem alguns problemas de dicção, qual presidente da junta. Ele aproxima-se do balcão, encosta-se nele e diz: “Eu queria folhas daquelas cortadas, assim folhas! Do costume!”. Expliquei-lhe que não vendíamos folhas. Ele parou de falar, olhou à sua volta, circunspecto, levou as mãos à cintura e disse: “Tão mas isto não é a papelaria Fernandes?”. Aparentemente não, e pensei que tinha acabado aqui. “Olha esta! Mas eu também sou vosso cliente!”. Estava enganado. “Já que aqui estou quero um livro, até é editado por vocês, chama-se Conhecer!”. Tentei obter mais informações, não me soube explicar melhor. Pesquisei, não surgia nada. “Afinal não é conhecer, é Viver! Sim, Viver! É sobre animais!”. Eu já via a pesquisa a dobrar com o cheiro do álcool, mas tentei continuar. Em vão. “Então, é Viver, sobre animais, em inglês. Sobre animais em extinção! É isso! Life Animals. Life. Animals, Life, mas ao contrário!”. Além de enólogo é poliglota. Tinha-me saído o jackpot. Continuei sem encontrar nada. “Sim quero os livros em inglês porque tenho o curso todo!”. Life Animals = Animais em Extinção? As coisas que se aprendem atrás de um balcão. “Tenho o curso todo, veja lá que até tive para ir para os Estados Unidos!”. Pena não ter ido já, pensei eu. “Sabe, eu sou o melhor capista em Portugal. Faço capas. E até já me convidaram para ir para os Estados Unidos. Mas não fui. Não gosto. Aliás, já fiz capas para vocês e tudo. Não tenho é máquina.” E parafusos também não… “É que é o seguinte: eu até comprava uma máquina, mas não me cabe em casa. Se entrasse a máquina, eu tinha de dormir na rua, e com a chuva é mau. E a máquina, apanhar chuva também estragava-se logo não é?” Nem mais, nem mais.
Nesta altura o Santo, já farto de rir à minha conta, faz uma chamada interna, para que eu fingisse que atendesse o telefone e ele se fosse embora. Em vão. Eu fingia que falava ao telefone e ele não se calava. Fui até à secção infantil, fingir que ia buscar um livro e ele veio atrás de mim.
“Sabe que sou o melhor capista em Portugal? Já me convidaram para ir para os Estados Unidos, mandaram me uma carta! Mas eu não vou, aquela merda é só porrada.” É uma perspectiva sociológica digna de ser aprofundada. Eu continuava a procurar um livro qualquer e ele continuava a falar. “Eu podia ir para os Estados Unidos, porque tenho o curso de Inglês todo. Já lhe disse?”. Acho que já tinha falado assim por alto disso… “Até recebi uma carta para me convidarem!” Nisto, tira do bolso um monte de papéis e desdobra uma carta, efectivamente escrita em inglês. Eu já estava a pensar que talvez ele não fosse assim tão alucinado. Mas quando ele me põe a carta à frente dos olhos leio o seguinte: “Your VISA card hás been canceled due to illegal…”. Estes americanos têm maneiras deveras estranhas de convidar uma pessoa para o seu país. “Está a ver? Convidaram-me, mas eu não vou, é só porrada”. Este deve andar a ver wrestling a mais. Voltou à conversa dos livros, perguntou-me onde poderia encontrá-los, eu indiquei-lhe que tentasse na zona do Chiado, porque lá há várias livrarias antigas. O que eu fui dizer…
“Chiado? Bairro Alto? Fui ontem ao Bairro Alto, cantar ao Chico! Conhece o Chico?!” Ainda não tive esse prazer, infelizmente. “Tem de ir, tem de ir. Para cantar lá ou aguentas ou não! Eh Touro! Eh Touro!” Dizia ele, enquanto fingia ser um forcado. Depois cantou (?) um bocado e continuou: “Fui cantar ao Chico! Ou aguentas ou não!”.
Aparentemente não aguento, não…

segunda-feira, maio 21, 2007

A Brilhar Desde, Deixa Lá Ver... Há Muito Tempo.

É com toda a autoridade que a posição de livreiro (independentemente de não ser uma profissão reconhecida institucionalmente… este blog poderia ter o melindroso título de “O Caixeiro” o que, vistas bem as coisas, tira um pouco do romantismo inerente à profissão) me confere que faço a seguinte afirmação: o mundo está perdido. E quando digo perdido não me refiro a aquele sentimento que se apodera de nós quando damos a terceira ou quarta volta ali para os lados de Cinfães e ficamos sem saber bem onde estamos e para onde vamos. Perdido no sentido metafísico da coisa, e assim. E porquê?
Primeiro, temos uma velhinha, que, à primeira vista, facilmente mereceria o epíteto de amorosa, que queria livros do Álvaro de Campos porque, segundo ela, “eu confundo-os a todos, já não sei o quem é o Álvaro e quem é o Ricardo Reis ou o Pessoa”. O que, diga-se em abono da verdade, é perfeitamente natural. Se a senhora já tem ar de quem confunde os nomes dos filhos, o que dizer dos heterónimos de Pessoa? Depois de lhe dar o livro que ela procurava, incumbiu-me de outra missão: encontra um livro sobre a história dos Judeus. Tínhamos um sobre a história do Judaísmo, mas não era bem isso que ela queria. E aí começou o seu triunfante discurso: “Ah filho, isso do Judaísmo não quero, era mais a história dos Judeus, o povo, está a ver? Quer dizer, eu sei onde eles estão, e melhor, onde eles deviam estar, que era lá para baixo em África e não onde estão hoje em dia, e só foram para lá arranjar guerras, deviam era ter ido para África, lá para o fundo, que era para onde deviam ter ido. “ Aquele senhor alemão do bigode ridículo iria adorar esta senhora.
Depois temos o cliente que, com a loja vazia, começa a espreitar para o back Office. A princípio pensei que procurava alguém, mas quando ele se dirigiu para mim percebi que não era isso. “Então, amigo”, diz ele. O que, para ficarem a saber, é sempre mau sinal. Quando um cliente se refere a nós como amigo é caso para ficarmos de pé atrás. “Então, amigo, por acaso não tem aí quadros, nem posters?”. Respondi negativamente, e ele voltou à carga: “Não tem mesmo quadros nem posters?”. Respondi novamente da mesma forma, e ele aí ficou desarmado: “Pronto, eu digo-lhe o que queria. Sabe aqueles posters de gajas, assim, pronto, gajas nuas e boas, por acaso não têm aí?”. Há que referir em nome do rigor histórico que o senhora, cada vez que dizia "boas e nuas" fazia com as mãos o gesto universal de mulher curvilínea. É normal ele perguntar isto, visto a nossa livraria ser apenas uma fachada para um negócio de pornografia ilegal, mas de qualquer forma fiquei confuso. “ É que eu tenho uma parede vazia no quarto e queria ter assim uma gaja boa, está a ver?”. Como ele estava numa nobre demanda vi-me forçado a ajudá-lo, enviando para a Kodak mais próxima, onde, passe a publicidade, fazem uns quadros todos janotas a partir de fotos. Fica mais um acto revelador de um profundo humanismo.
Mas nenhum humanismo se compara ao do nosso colega e amigo Gulbenkian. Um cliente aproxima-se de mim e pede-me um livro alusivo ao seguinte tema: estar às portas da morte, passar para o lado de lá e depois voltar. É um tema bastante complicado, e, tanto eu como o Gulbenkian, estávamos com algumas dificuldades. Até que me recordei do livro “E Depois?”, que retrata, ficcionalmente, uma experiência de quase morte. Mas o Gulbenkian, qual herói encapuzado, decide ir mais longe. “Então e ali um livro que temos, “Viver Melhor a Quimioterapia?”. A expressão do cliente oscilou entre a surpresa, depois a tristeza e por fim uma desconsideração abismal. “A ideia era animá-lo.”, diz o cliente. Ah, como é danado este Gulbenkian.
Já hoje de manhã, o primeiro cliente foi digno de registo. Tudo parecia correr dentro da normalidade até ao momento de ele pagar e se ter esquecido do cartão de cliente. Ora, como não estava para chatices, decidiu fazer um novo. Denotou algumas dificuldades em preenchê-lo, enchendo o formulário de setas e riscos. Depois entrou num enternecedor monólogo: “Isto do cartão é bom porque a vossa loja é boa. Eu vou a muitos sítios e tenho que procurar muito, aqui não, aqui encontro muita coisa. E compro. E é barato. Sou um cliente muito antigo. Vosso e da Valentim de Carvalho. Sim, porque vocês antigamente eram uma luz no meio da MER-DA. Agora a Valentim perdeu muito com a Fnac, e levou uma batelada nos livros e nos discos. Veja lá o Top da FNAC, aquilo é para rir, é um conjunto de MER-DA! Mas eu não gosto desses franceses e prefiro vir aqui, aqui e à Valentim de Carvalho, porque sou um cliente antigo”. Foi aqui nesta altura que ele entrou em loop até sair pela porta, sempre a falar sem parar. Bela maneira de começar o dia.

quarta-feira, abril 25, 2007

Este é O Livreiro Sem Estudos

Como eu gosto da nova campanha do governo, “Novas Oportunidades”, onde se vê uma sorumbática e abatida Judite de Sousa a arrumar uns livros. Curioso é que 90% das pessoas que trabalharam aqui tinham ou estão a tirar formação superior. Mas pronto, o Shor Zé é que sabe de licenciaturas, quem somos nós para questionar os seus projectos? Formação é muito bonita, mas e que tal emprego? E que tal o facto de estando as pessoas em formação deixem de contar para as estatísticas do desemprego, fazendo assim parecer que as politicas do governo estão a funcionar? Se houvesse um blog chamado “O Primeiro-Ministro” eu ia visitar, seria uma barrigada de riso!
Chegou uma cliente ao balcão com um saco, dizendo aos quatro ventos que tinha um livro com defeito. Rapidamente me ofereci para trocar o livro à senhora, e mal ela começa a tirar o livro do saco eu reparo que é o “Cemitério de Pianos” do José Luís Peixoto. Tendo lido o livro (grande livro) percebi logo o que vinha seguir. “É que a partir da página cento e tal as frases não coincidem umas com as outras, e eu começo a ler uma coisa, depois aparece outra sem ligação, depois outra, depois vou apanhar o resto da primeira coisa, isto tem defeito!”. Expliquei à senhora que era mesmo assim e expliquei as razões para isso. Ela ficou desconfiada: “Mas como é que sabe? Foi mesmo o autor que disse isso?”. Ela levou o livro de volta mas não pareceu muito convencida. Ser um escritor muito à frente tem destas coisas.
Por vezes, ao arrumar a livraria, deparo-me com os livros mais estranhos que nunca me tinham passado pelas mãos. Um dos últimos casos é o da colecção “A Saúde Do Diogo”, que tem títulos muito bonitos e animadores. Vejamos o caso dos clássicos “Diogo Vai à Clínica” e “Diogo Vai Ao Hospital”. São duas bonitas experiências, diferentes entre si que merecem cada uma o seu livro. A minha questão e: para quando o livro “Diogo Vai Ás Urgências Mas Estas Estavam Encerradas”? Outro clássicos incluem o enternecedor “Diogo é Operado”, o inspirador “Diogo Tem Alergias” e o drama “Diogo Tem Diabetes”. Resta saber quando sai o resto da colecção, nomeadamente o “Diogo Morre” e o “Diogo é Autopsiado” e o final feliz, “Diogo é Cremado”.
O que dizer dum cliente que vagueia pela loja, mal ela abre, durante dez ou quinze minutos e depois passa por mim e diz, com o tom mais irado do mundo: “TAMBÉM NUNCA TEEM NADA!” e dirige-se para a porta? Pensei que ele se tinha passado, mas depois o facto de o ver, quando uma senhora deixa cair os seus dez saco do Gato Preto à frente da montra, gritar “VÁ FORÇA! FORÇA NISSO!”, fiquei com a certeza de que ele era sempre assim. Deus o ajude.
Há assuntos sobre os quais eu prefiro permanecer ignorante. Um deles são as “Provas de Fricção para o 9º ano” que um cliente me pediu, ontem. Será que o filho dele anda nalguma escola onde o deboche é um lugar comum? Lá está, prefiro não saber.
Depois temos a velhinha inofensiva que caminha para o balcão, enquanto eu vou pensando já em que livro da Sveva Modignani é que ela quer, e me deixa logo sem resposta. “Tem livros de Cientologia?”. Depois de refeito do choque, respondi afirmativamente. Claro que temos. Qualquer livraria que se preze tem livros de Cientologia, a base de todo o conhecimento humano. Levei a senhora comigo, lentamente, pelo meio das gôndolas até à secção de esoterismo. Quando chegámos, ela foi clara nos seus objectivos: “Olhe que eu quero um livro de Cientologia, mas dos sérios!”. Claro que é dos sérios, aliás, relativamente à Cientologia é dificíl encontrar algo que não seja sério. Fazem cada pergunta… Comecei a mostrar-lhe os livros que temos, e ela ficou desconfiada: “Mas isto é a sério?”. Mais a sério não podia ser, expliquei à senhora, pois os livros eram redigidos pela mão divina do criador da Cientlogia, L. Ron Hubbard. Ela ficou mais descansada. Mas agora outra dúvida inquietava a sua mente: “Então e qual é o melhor para começar?”. Aí tive de puxar dos galões de ilusionista e ludibriar a senhora, lendo o título e umas palavras da contra capa Este é o “Cientologia – Fundamentos do Pensamento”, e fala nas raízes da Cientologia e nos seus fundamentos, disse eu. A senhora ficou maravilhada: “Ahhhh, então você percebe disto…”. Na altura pensei que era bom. Agora que penso que ela acredita na Cientologia, o meu mérito sai bastante mal tratado nesta questão. Enfim.

terça-feira, abril 03, 2007

E Vão 100. Este é Dos Grandes.

Aqui estou, segundo o Blogger, a redigir o meu centésimo post. Parecendo que não, e tendo em conta que alguns dos posts são o que se denomina vulgarmente por “testamentos”, já é qualquer coisa. O quê precisamente não sei bem dizer, mas é qualquer coisa. E claro, lá por ser o centésimo post não quer dizer que não tenham que gramar com mais do mesmo. Portanto ora aqui vai.
A infância é uma época bonita na vida de uma pessoa. Permite-nos brincar, sonhar, aprender e especialmente entrar nas lojas e dirigir-nos ao balcão passando à frente de tudo e todos e interrompendo a soberana figura do livreiro. Esta criança conseguiu a minha atenção à força, e não esperou para fazer o pedido: “OLHE, QUERIA VER ALI O LIVRO DA ESTROMANIA QUE ESTÁ NA MONTRA!”. A mãe olhou para ele de lado: “Tu queres ver o quê?”, o que, curiosamente, era o mesmo que eu estava a pensar. “O LIVRO DA ESTROMANIA! TÁ ALI FORA!”. Tive de lhe pedir para me mostrar o que raio é que ele queria, porque já tinha percebido que não íamos sair dali tão cedo. Então a tal “ESTROMANIA” não era senão o livro “Bem-vindo Ao Mundo Do Wrestling”. O que é praticamente a mesma coisa. Agora percebo que ele queria dizer “Wrestlemania”, apesar de isso não estar no título ou não ser o nome do desporto em si, foi um bom esforço mas precisa de treinar mais. Talvez em vez de ver uns gajos suados a dar umas mocadas na cabeça um dos outros devia aprender a ler. Não sei, digo eu, não percebo nada de educação.
Um cliente bastante decidido aproxima-se de mim e pergunta: “Tem livros de plantas? É que eu preciso de livros sobre plantas… Onde é a secção das plantas?” Saí do balcão e desloquei-me, com o cliente a seguir-me, até à secção de plantas e disse aqui tem a secção de plantas. E o que responde o cliente? “Ah, mas eu queria era mesmo livros de árvores!”. Ah brincalhão.
Há funções deveras entediantes inerentes ao trabalho numa livraria, sendo que a conferência de créditos é uma delas. Estava eu com quatro facturas na mesa e no colo, confirmando valores um por um, num papel com letra pequena e mal imprimida, quando aparece um cliente a espreitar para dentro do back Office. Pousei as facturas e segui para o balcão. A minha colega estava a atender, estava outra senhora na fila e estava o senhor a pôr-se à frente. Perguntei quem estava primeiro, e a senhora, assustada, queria dar lugar ao senhor mas eu não o permiti. Ele não achou piada: “ISTO É INCRIVEL, QUANDO A LOJA ESTÁ CHEIA É MAIS RÁPIDO, POIS QUANDO A LOJA ESTÁ CHEIA POEM TODA A GENTE A TRABALHAR!” Pois, eu estava no escritório a brincar com as facturas às mamãs e aos papás, na esperança que dessem uns créditos bonitos quando ele me interrompeu. Ele não percebeu que eu só trabalho quando há mais de dez pessoas na loja. Menos que isso não merece a minah atenção.
Definitivamente, e voltando a um assunto que abordei no testamento, perdão, no post anterior, há qualquer coisa que faz de mim Livreiro, mesmo nas folgas. A minha pequena filha insistiu em vir dizer olá ao Santo. É o respeito pelo divino. Enquanto ela estava a conversar com ele (e se o Santo gosta de conversar com alguém que tem o mesmo nível emocional que ele) eu fiquei parado na loja, a observar. É então que chega um senhor ao pé de mim e pergunta se temos um certo e determinado livro. E eu sem farda, sem nada, era apenas um anónimo parado no meio da loja. Alguma coisa há que nos distingue. Por favor digam que não é algum odor estranho.
Dizem que as crianças são a alegria da casa, eu digo que as Tias são a alegria da loja. Elas berram, esbracejam, dançam, fazem a festa sozinhas. Depois de andarem horas a ver livros e a fazer barulho, finalmente decidiram oferecer um livro sobre armas a um amigo, e queria oferecer um postal, e passo a citar, “QUE TIVESSE ASSIM DUAS BOAZONAS COMO NÓS!”. Obviamente que não preciso de dizer que as duas senhoras na casa dos sessenta anos não se enquadravam no perfil de boazonas. Mas fica a boa disposição. Na despedida, ficou o aviso de uma das amigas para a outra: “TEMOS DE IR À NOITE, E NÃO DEIXES A TERESA BORREGAR!”. Ah, como é bonito ouvir termos de equitação ou aviação na mesma frase que nomes de mulher.
Há clientes indignados, alguns com toda a razão. E há outros que são como este cliente que passa na montra, visivelmente irritado, mete a cabeça dentro da loja, olha à volta e diz: “AQUI SÓ TEM LIVROS!”, da forma mais irritada e nervosa que possam imaginar. E continua furiosamente pelo corredor fora. Ora tendo em conta que este local é, lá está, uma livraria, penso que não estamos diante de um caso paranormal. Mas talvez isto só seja claro para umas quantas mentes iluminadas.
Para terminar, que o testamento já vai longe e ainda nem sequer decidi a quem deixar a minha Playstation2, temos a cliente que estava desesperada: “POR FAVOR, QUERO UM DECRETO-LEI!”. Tentem perguntar o que é que ela queria concretamente, mas ela só dizia: “QUERO UM DECRETO-LEI! SEI LÁ! NÃO HÁ NENHUM LIVRO QUE TENHA UM DECRETO-LEI?”. É nestas alturas que penso que dava jeito ter ali o Sr. Jurista como colega. Disse à cliente que não havia nenhum livro com esse título, tentei novamente perguntar a que era referente o decreto-lei, ou se sabia o autor ou editora. A resposta surgiu ainda mais nervosa: “ENTÃO! O AUTOR DO DECRETO-LEI É O ESTADO! O ESTADO!”. Sem mais alternativas, levei a senhora até ao local do direito para ela dar uma vista de olhos, tentando sempre fazer perguntas que a levassem a dizer qualquer coisa coerente. O melhor que consegui foi: “QUERO UM DECRETO-LEI DE LIMPEZAS! E JÁ LIGUEI PARA CASA NACIONAL IMPRENSA DA MOEDA E NÃO ME SOUBERAM RESPONDER!”. Apesar de ter feito um ar surpreendido, obviamente que no fundo sabia que ninguém lhe conseguia responder seja o que fosse. Os senhores da Casa da Moeda não são milagreiros. Lá saiu a senhora, altamente desiludida por não ter encontrado o seu decreto-lei. Boa sorte, e o que o senhor Estado, o que redige os decretos-lei, te acompanhe! Bom escritor, o gajo.
Obrigado pelas leituras, comentários bons, maus e esquizofrénicos. Obrigado.

quinta-feira, março 01, 2007

O Que Faço Aqui?

Por muito que pudesse estar alheado da realidade, nas nuvens, distraído do mundo, ouvir, mal entro na loja, uma coisa como: “Ah, isso é como ter problemas na Tiróide, mas ao contrário!”, faz me logo lembrar que, sim, sou Livreiro. E o que é um problema da Tiróide, mas ao contrário? Prefiro não saber...
Depois, antes sequer de tirar o casaco e mostrar ao mundo a bela farda, já estavam umas adolescentes espanholas a abordar-me. E antes de passar à questão propriamente dita das adolescentes espanhola, há que abordar outra questão. Como é que raio elas, estando eu de casaco e parado junto à entrada da loja, apenas a ver um livro, sabiam que eu era Livreiro? Como? Emanará o Livreiro um odor a bolor típico dos livros? Ou teremos isso estampado na testa? Eu não sei, a verdade é que por vezes estou de farda e de identificador e ainda assim amigos, ainda assim perguntam se eu trabalho na Livraria. É verídico. Que mais preciso fazer para as pessoas verem que trabalho aqui? Bem, talvez os engraçadinhos digam coisas como “ah e tal e se trabalhasses?”. É um ponto de vista. Mas a verdade é que me fazem essa pergunta mesmo quando eu carrego uma valente pilha de livros.
Passando novamente às adolescentes espanholas, a primeira coisa que a mais destemida me diz é: “Tienes un libro antigo?”. Eu tentei, através do método Socrático, fazer perguntas que desvendassem um pouco o mistério. Qual seria o livro antigo? Autor, editora, título? Nada disso. Ela apenas repetia “libro antigo” como se a vida dela dependesse disso. Depois, sempre que tentava estabelecer alguma comunicação, dizia “no entiendo” e elas e as amigas riam-se nervosamente, agarradas umas às outras. Onde é que está o Gulbenkian, esse verdadeiro poliglota, quando precisamos dele? E onde estava o Santo, esse dominador de pitas nacionais e estrangeiras? Se há um livro engraçado que costumamos ter junto ao balcão é a agenda Maria Raquel. É uma bonita agenda, azul na edição deste ano, com uma senhora de fato de treino a correr em direcção a parte incerta. E a agenda vem dentro de uma embalagem que inclui um pedaço de cartão que anuncia, além do preço, as ofertas e qualidades da agenda. E que fantásticas oferendas são estas, cortesia da agenda Maria Raquel? O belo do avental e do bloco de compras, ficando assim munidas, desde já, com as mais importantes ferramentas que uma mulher pode necessitar. Se quiserem incluir o direito ao voto e à equidade no trabalho entre homens e mulheres, estão à vontade, mas isso é muita emancipação para a Maria Raquel. A agenda inclui também segredos de culinária, conselhos de beleza, medicina doméstica e anedotas. A prenda ideal para aquelas três ou quatro dona de casa que ainda existem neste vosso Portugal.
Depois temos aquela cliente que andava a vasculhar os álbuns colocados em cima da mesa, mexendo e remexendo freneticamente e que, sem qualquer aviso prévio ou saudação educada, berra lá da outra ponta da mesa: “O QUE É QUE ESTE HOMEM FAZ DA VIDA?”. Uma pessoa fica sempre na dúvida, estará a falar connosco? Haverá alguém debaixo da mesa? E este homem quem? Decidi aguardar por novos desenvolvimentos. A senhora levantou um livro e disse: “O AUTOR DESTE LIVRO, O QUE FAZ NADA VIDA?”. Desloquei-me até à senhora, pois se continuasse a berrar daquela forma a senhora acabaria por perder a voz e, sem voz, não seria capaz de dizer parvoíces. E sem parvoíces não há blog. Lá fui eu, então, e antes de chegar junto a ela, já estava a falar outra vez: “É QUE EU NÃO VOU COMPRAR ISTO SEM SABER O QUE É QUE O AUTOR FAZ!”. Eu tentei procurar na capa e contracapa alguma indicação biográfica do autor, mas sem sucesso. Não havia qualquer informação disponível. A senhora não ficou nada contente: “DESCULPE LÁ, EU NÃO VOU COMPRAR UM LIVRO SEM SABER QUAL É A PROFISSÃO DESTE JOAQUIM VIERA! PODE SER PESCADOR, PODE SER QUALQUER COISA, SEI LÁ!”: É, é isso mesmo, é pescador, e nos intervalos da faina anda a recolher informações e fotografias para fazer um livro sobre o Portugal dos anos 50. Típico, aliás, de qualquer pescador. E que tal, não sei, vamos fazer assim um exercício louco, que tal se a profissão dele for, imagine-se lá, escritor? Sei que parece uma loucura, mas pode acontecer. Qual é a profissão deste escritor? É escritor. Seria o choque total.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Vai Tudo Dar Ao Mesmo

Há coisas que, por muito que ouça, por muito que veja, me deixam sempre com um riso difícil de conter, com aquele sensação de que vou explodir em gargalhadas e lágrimas. Especialmente quando tenho, nada mais, nada menos, que o lobo do mar Gulbenkian ao meu lado. Uma tia e sua respectiva filha (reparem no inicio desta frase. Se traduzissem isto para um inglês, de certo ele perguntaria: mas não devia ser tia e sua respectiva sobrinha? Devia. Bem vindo a Portugal) procuravam, espalhafatosamente, uns livros. Primeiro a filha chega ao balcão e pede livros da Agatha Christie, e quando eu saio do balcão para indicar a respectiva secção, ela vira as costas e sai da loja para falar com umas pessoas. Eu fiquei parado junto à secção, estupefacto, enquanto o Gulbenkian já estava com ar de quem queria rir. Lá veio ela, lá escolheu os livros e pediu à mãe para pagar. A mãe tinha ar de quem era irmã dela, tanta a plástica. Quase que posso jurar que cada vez que ela sorria, só mexia o lábio esquerdo e levantava ao mesmo tempo a perna direita. Se fizesse um som tipo “GHHHHHHZ COMO TE LLAMAS? QUIERO SER COMO TU!” eu tentava por lhe uma moeda na boca a ver se saía um ovo com brinde. Antes de pagar atendeu o telefone e desatou aos berros, a dizer como ficava louca porque ia jogar o Chelsea. Depois viu um livro de cavalos e disse que estava lá o cavalo dela. Mas ela não estava porque estava fora. Quando finalmente se lembrou de pagar, entregou o seu VISA, mas esta não passava. Ela disse que era normal, porque, atenção, “É O MEU CARTÃO SUBRESSALIENTE!”. E a esta altura já eu pedia encarecidamente ao Gulbenkian para se ausentar para o Back Office porque se olhássemos um para o outro alguém ia perder o controlo.
Depois há clientes que enganam. Veja-se o caso da adolescente com ar cândido, com todo o aspecto de quem acabou de largar as saias da mãe, e que se passeia junto à secção de livros juvenis. Cara de quem não tem mais de treze anos, roupa de quem não tem mais que quinze, vê os livros descansadamente. Quando se dirige para o balcão, penso que lá vem mais uma adolescente perdida que não sabe onde estão os livros do Diário de Sofia ou do Diário da Princesa. Mas o que ela diz é o seguinte: “Boa tarde, tem o MANUAL DA BRUXA SATANICA?”. Ora bem. Nem mais. “O Manual da Bruxa Satânica.” Deve ser um clássico da literatura juvenil que desconheço. É que, reparem, não é só o facto de ela querer o manual da Bruxa, ela quer o manual da Bruxa que é Satânica. Podia ser uma bruxa cristã, ou hindu, porque não? Mas tinha logo de ser Satânica. A juventude está perdida. Depois de verem a Floribella vão fazer rituais satânicos para o quarto.
A secção do esoterismo atrai realmente muita gente. Num destes dias tentei ir buscar um livro ao esoterismo, uma secção que não tem mais de um metro de largura, e estavam cinco pessoas a tentar ver o que por lá havia. Seis, a contar comigo. Fui empurrado e acotovelado por pessoal feio e vestido de preto enquanto via pentagramas. Não me acontecia nada parecido desde o concerto de Slipknot.
Um senhor chega ao balcão e diz o seguinte: “Boa tarde, vinha aqui há procura de um livro que ajudasse ou ensinasse a escrever. É tenho lá em casa um miúdo, que por acaso é meu filho, que tem dificuldades!”. Por acaso é filho dele. Que curioso. O pessoal geralmente tem miúdos em casa mas é para outras coisas. Olhem a casa de Elvas. Também podiam dizer que tinham uns miúdos em casa. Lá encontrei um livro para o caro senhor, e, depois de alguma conversa, falámos sobre o que ajudaria à escrita. Ele defendia a prática. Eu defendia que, além da prática, a leitura é essencial. Até que ele diz o seguinte: “Ler livros para depois ir escrever é a mesma coisa que ver futebol na televisão e depois ir jogar. Não serve de nada!”. É aqui que eu não digo mais nada, apenas fico a ouvir na esperança que surjam mais pérolas como esta.
Há coisas que me fazem alguma confusão. Astrologia para bebés é uma delas. Duas amigas que procuravam o livro comentavam que “aquilo é mesmo igualzinho ao bebé da Maria! O que diz lá é como ele é e como faz!”. Estavam maravilhadas. Esse livro é uma boa ideia. É só copiar o que os outros dizem sobre os adultos e acrescentar um horóscopo tipo: “segunda-feira o seu bebé vai fazer chichi e chorar quando tem fome. No plano das relações vai dar-se bem consigo se for boa para ele. Já na parte da noite, vai acordar quando tiver a fralda suja.”. E as pessoas compram… E vão mais além, compram Astrologia para Animais. “Deixa-me cá ver se é hoje que o Rex me mija o sofá…”. Com livros assim, o mundo é um local melhor.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Quem é o Mais Forte?

Para aqueles que temiam que eu tivesse perecido perante a temível e dura formação, eis que eu volto para vos sossegar. (A minha empresa põe os clientes em primeiro lugar) Nada temam, a formação não foi a lavagem cerebral que toda a gente dizia que ia ser. (A minha empresa é a melhor do mundo.) É verdade, aquilo até foi engraçado, ver que nas outras lojas também é tudo doido, quer sejam os clientes quer os colaboradores. (Vender é importante, e o cliente é de ouro.) Mas a formação passou-se bem, afinal de contas, foram apenas dois dias. (O atendimento Premium é importante para fidelizar o cliente). Claro que quando voltei ao trabalho não pude aplicar nada do que aprendi, mas não dei o tempo por mal empregue. (Temos de ajudar os clientes a ajudar a empresa.) Há sempre coisas úteis que ficam e que ajudam a desempenhar melhor esta espinhosa função. (Vender. Vender. Vender. Vender. Vender.)
E, logo um dos primeiros clientes que apanho é um senhor que, antes sequer de eu ter posto em prática as tácticas de aproximação ao cliente, já está a disparar em todas as direcções: “QUERO UM LIVRO AHN? MAS LITERATURA A SÉRIO AHN? TENHO 3500 LIVROS AHN? E ESCREVO CONTOS.”. Eu respondi apenas: Ahn… E desloquei-me para as novidades, para ver o que poderia agradar ao senhor. Enquanto pesquisava, ele continuava: “3500 LIVROS AHN? E ESCREVO CONTOS. E QUERO UM LIVRO A SÉRIO, NADA DESSAS PARVOÍCES QUE POR AÍ ANDAM”. Comecei por lhe sugerir alguns livros, que ele prontamente recusou, dizendo pérolas como: “O QUÊ? JÁ LI TUDO DESSE AUTOR AHN?” (quando o autor em causa apenas tinha um livro), “JÁ LI ISSO PRÁI HÁ TRÊS ANOS AHN?” (quando o livro era português e tinha saído o ano passado), “JÁ LI ISSO EM FRANCÊS! JÁ LI ISSO EM ESPANHOL! JÁ LI ISSO EM ITALIANO AHN? JÁ LI EM INGLÊS!” eram as respostas que ia dando conforme eu ia lhe passando livros para a mãe. Quando lhe dei o novo livro de José Luís Peixoto para a mão (brilhante, claro), o cliente diz: “JÁ LI TUDO DELE AHN? ESTE NÃO! HMMMMM… É MAÇUDO?” pergunta o cliente, e eu disse que não era nada maçudo. “ENTÃO E DIGA ME LÁ, É LINEAR? NÃO GOSTO DE CONFUSÃO AHN?” Muito linear, é uma linha trás da outra, não há que enganar… Mostrei-lhe a parte da maratona, e o cliente até ficou azul: “AH QUE CONFUSÃO! NADA DISTO, NADA DISTO AHN?”. Depois mostrei-lhe Murakami, e ele folheou e disse: “OUÇA LÁ, EU NÃO SEI QUANTO A SI, MAS EU DE CERTEZA QUE NÃO FALO COM O MEU GATO E ELE ME RESPONDE! NÃO QUERO ISTO!” Elucidativo da gentileza do senhor. Farto de mostrar novidades, passei para os clássicos da literatura. A resposta era invariavelmente: “TENHO 3500 LIVROS AHN? ESCREVO CONTOS!”: Quando lhe mostrei Dostoievsky, disse: “JÁ LI EM RUSSO AHN. ISSO É MAÇUDO, SÓ SE FOSSE PARA LER NAS ESTEPES DA SIBÉRIA, É MAÇUDO!”. Era claramente isso que Fiodor Dostoievsky tinha em mente quando escreveu “O Idiota”. Eu tentei manter critérios de qualidade na apresentação dos livros, mas, passado dez minutos já não fazia ideia do que lhe estava a passar para a mão. E foi assim, a escolher aleatoriamente, que ele se decidiu finalmente por dois livros. Os livros para ele ou não eram literatura a sério ou eram maçudos.
E não podia partir sem vos falar de uma personagem já habitual da loja. Não temos (ainda) alcunha para ele, mas ele é merecedor de uma. Costuma ir à loja, nunca comprou nada, e consegue fazer as perguntas mais estranhas e sem sentido ou sem utilidade que se possa imaginar. Por exemplo, ele passa na loja, aproxima-se do Santo e pergunta: “Quem é mais forte, a Patrícia ou o Bernard Cronwell?”. O Santo teve de pensar três vezes antes de responder, caindo a sua resposta no Bernard. Eu, se tivesse no lugar dele escolhia a Patrícia, porque apesar de ser mulher ainda levanta 80kg com facilidade, o que não é de desprezar. Não contente, o cliente continua “Então e quem é mais forte, o Bernard Cornwell ou o VacVandermint?”. O Santo nunca tinha ouvido falar do VacVandermint, mas não hesitou em eleger este como o mais forte. E lá seguiu, o cliente, feliz da vida. Mais tarde viemos a perceber que ele se referia a Val McDermid, o que tinha obrigado o Santo a mudar a sua resposta. A próxima vítima fui eu. Perguntou-me como é que se fazia uma base de dados de livros, como é que nós a tínhamos organizado, como é que a podíamos melhorar. Depois da longa (e eficiente) resposta que lhe dei, perguntou-me quem era melhor, se o John Le Carré ou o Robert Wilson. Disse que era o John Le Carré, e ele disse: “Pois, eu prefiro o Robert Wilson, é que vi o filme “O Fiel Jardineiro”, depois li o livro e não havia nada de novo, parecia tudo muito familiar.” Não argumentei esta parte, porque ele tinha toda a razão. Depois pediu-me para comparar o tamanho dos capítulos de um e de outro, e claro, se eram mais fortes que o Bernard Cornwell. Tive que dizer que não e dar a mão à palmatória, o Bernard é o maior.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Conselhos

O Natal já está mesmo à porta e é a loucura total. O Gulbenkian está apaixonado e anda todo simpático para toda a gente. O Santo anda todo mal disposto (dizem que por ciúmes) o que traz um certo equilíbrio à loja.
Neste mês a presença no balcão é uma constante devido ao aumento das vendas, o que faz com que a probabilidade de encontrar algo de estranho também aumente. Vejam o caso de um senhor, talvez com 75 anos, de panamá azul, cachecol cinzento, bem vestido. Chega ao balcão e lê o meu identificador, primeiro o nome, depois o nome e apelido. Boa, pensei eu, sabes ler. “Diga-me lá se tem aí uns calendários!”. E eu apontei-lhe os calendários de parede o que obviamente não lhe agradou: “Não jovem, eu quero daqueles que se dobram e ficam tipo pirâmide na mesa!”. Eu expliquei que não tínhamos, que tentasse a Papelaria Fernandes. E quando pensava que a conversa tinha ficado por ali, ele encosta-se ao balcão e aproxima-se de mim e diz, em voz baixa: “Oh jovem, então e gajas boas? Assim boas, gajas nuas, tem?”. E eu às vezes cometo a falácia de dizer que já vi tudo, que nada me surpreende. Eu não respondi e ele continuou: “Assim calendários de gajas boas, mostre-me lá onde tem isso escondido!”. Eu expliquei que todos os calendários que tínhamos estavam expostos e fui lá mostrá-los. Ele começou a ver o calendário enquanto dizia: “Aqui não há gajas, quem compra isto é só bichas, só bichas!”. E depois foi-se embora.
Há clientes, repito mais uma vez, que não têm noção do ridículo a que se prestam em público. Veja-se o caso do senhor que maltrata constantemente a sua esposa, sempre que esta lhe propõe um livro para oferecer. Quando ela lhe propõe o livro sobre D. Sebastião ele explode e diz: “ACHAS MESMO MULHER?! ESSE GAJO! ESSE GAJO ESPANHOL É FACCIOSO E DIZ QUE OS ESPANHÓIS É QUE SÃO BONS E QUE ELES SAIRAM DE PORTUGAL PORQUE QUISERAM E QUE OS PORTUGUESES SÃO TODOS DOIDOS!”. Olhando para ele concordo na parte dos portugueses doidos.
E depois temos clientes que têm ideias que pensam que iam ajudar ao melhor funcionamento da loja. Uma senhora sugeriu que, já que distribuímos um catálogo de Natal, os livros do catálogo deviam estar numerados e assim os clientes, para poupar o trabalho de dizer um nome composto por umas ou duas palavras, apenas diziam o número. Tipo restaurante chinês. Isso facilmente daria azo a uma pessoa pedir o número do Saramago e receber um Pato com Ananás.
Um conselho: se não sabem, não inventem. Não finjam que sabem. Dá mau aspecto. Um cliente queria livros de ficção científica. Primeiro disse-me que não gostava muito de FC porque achava aquilo complicado para ler. Estranho, mas não comentei. Então lá lhe indiquei a secção da FC e ele lá ficou a ver os livros. Quando volta, traz o livro “O Carteiro De Pablo Neruda”, de António Skarmeta. Pousa o livro no balcão e diz: “Eu já li este livro e gostei muito. Não sabia era que era de ficção científica!”. Eu expliquei que o livro estava lá ao pé, em baixo, porque alguém o deixou lá. E que não era FC. Tudo bem que alguém que não conhecesse podia ver lá o livro e até pensar (apesar do título, sinopse e capa nada indicarem) que podia tratar-se de FC. Obviamente que ele não leu o livro, senão nunca diria que não sabia que era FC. Se bem que a ideia é interessante, imagino um carteiro inter galáctico, numa super nave a destruir alienígenas enquanto levava os poemas de Neruda. Ou melhor, destruía os alienígenas enquanto declamava Neruda.
Depois temos os problemas com o cartão de cliente cujo supra-sumo é a senhora que não se lembra do cartão, não se lembra se perdeu o cartão (o que é uma noção gira para debater, o não se lembrar se perdeu) e melhor não se lembra que nome deixou no cartão (geralmente é o primeiro e último, mas isso são as pessoas normais). Então pediu um cartão novo. O meu conselho: esqueça o cartão novo e vá ao médico, porque essa memória já teve certamente melhores dias.
E há clientes que teimam em inovar. “Bom dia, tem biologias de atletas famosos?” O que há a dizer numa situação destas? Temos ali a perna do Lance Armstrong, o pulso do Valentino Rossi e o pé do Liedson (gostávamos de ter a espinha, mas consta que ele não a tem...). Último conselho: tentem pelo menos acertar no que pedem. Biologias, biografias, não é bem a mesma coisa.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Canta Comigo

Daqui a nada estamos no Natal. Aliás, pelos enfeites e pelas músicas qualquer pessoa acordada de um coma profundo poderia jurar que já estávamos a poucos dias do Natal. Claro que quando soubesse que é Fernando Santos o treinador do SLB, voltaria rapidamente ao coma. E aqui pela livraria, vai tudo na mesma. Pilhas e pilhas de livros a acumularem-se no back Office, mil e uma invenções para conseguirmos arranjar espaço para os livros na loja, é o pandemónio total. E a entrada e saída de pessoas continua, desde o meu último post saiu mais uma pessoa, e entrou hoje outra. É o Benfica dos anos 90, é o que vos digo. Eu gostava de ser o João Pinto, mas o Gulbenkian é mais parecido por causa da farta pelugem.
E os clientes continuam em grande. Uma das características que define alguns clientes é o seu gosto pela música. Por um lado, temos a senhora que não resiste enquanto ouve Smiths aqui na loja. Para além do bater incontrolável do pé, temos um murmurar da letra. E quando a música ganha força, ela não se controla e começa a cantar. Até aqui, tudo bem. O problema, caros amigos, é que quando Morissey canta isto: “A jumped-up pantry boy / Who never knew his place / He said return the rings / He knows so much about these things” a senhora diz: “XAMPAPUMPYPOY / LALA NENE NU IS PEISSSE / AAAHHHH TAAAARNE TO ME / NINOES TOMATCHE ABAUTE TITIEEEES” Lá está. O Morrissey ficaria orgulhoso. Outros clientes que gostam de música são aqueles que vêm pedir informações ou pagar alguma coisa e não tiram os headphones dos ouvidos. O tirar ou não tirar é me indiferente, agora ouvirem música enquanto falam comigo… Dá azo a conversas como:
- O livro está esgotado.
- Ahn?
- Está esgotado. O livro.
- Quê?
- Não está disponível.
- Não ouvi bem.
O que não é nada mal-educado nem irritante. Mas enfim. Eu percebo que deve ser interessante ver me embrulhar ou procurar um livro ao som do Eye Of The Tiger, ou do tema da A-Team. Agora que penso nisso, deve ser bem janota. É que são coisas perigosíssimas e de uma adrenalina extrema.
Mas às vezes os problemas de comunicação não surgem só com clientes agarrados à música. Reparem um caso em que um cliente me pergunta se fazemos descontos a lojistas. Eu disse isto: “Não, porque fizeram umas alterações no nosso sistema informático, o que significa que agora para podermos fazer um desconto temos de inserir o número do cartão (ACP, GGD, etc) que dá esse desconto…”. Resposta dele: “Então, mas faz ou não?”. Eu comecei a frase com Não. Depois dei a justificação desse não. E o cliente ainda ficou na dúvida. Antes clientes fãs de música do que lentos de raciocínio.
E depois temos os clientes que têm características especiais na fala. Por exemplo, o cliente que falava num tom perfeitamente normal, calmíssimo, mas que cada vez que dizia a palavra “samba” saí-lhe algo como “SAMBÁÁÀ!”? “Bom dia, eu gostaria de saber se tem o livro a história do (sobe o tom de voz) SAMBÁÁÁ?”. Disse-lhe que não, mas ele continuou, num tom de voz normal: “Então e diga-me, costuma ter ou esta à espera de receber alguma coisa de (sobe novamente o tom de voz) SAMBÁÁÀ?”. Voltei a dizer que não e ele voltou ao tom normal. “Ah, estou a ver. Mas conhece algum livro de música ou algum autor que foque o tema do (sobe tom de voz) SAMBÁÁÀ?”
A Floribella é um sucesso mundial. Estava eu aqui no balcão descansado quando passam na montra uns senhores a falar uma língua que me pareceu oriunda do médio oriente. Então iam andando e falando, naquela língua altamente imperceptível, quando param, olham para a montra, e um deles diz: “AH… FLORIBELLA!” e continuam a andar e a falar árabe, como se não fosse nada. A Floribella ainda vai acabar com o conflito no médio oriente, só vos digo.
Outro tipo de clientes que eu gosto muito são os que sabem tudo mas ainda assim gpstam de perguntar. Reparem, chega uma senhora junto de mim e diz: “Olhe eu vi na Fátima Lopes ou coisa que o valha uma senhora chamada Maria Helena que é astróloga e disse que ia sair uma agenda dos anjos, é mesmo assim o título, e disse que saía sexta, sabe o que é?” Não sabia, mas passei logo a saber. E a agenda chegou mesmo na sexta. Só que a agenda não se vende, é parte integrante do livro de previsões da dita Maria Helena. E agora reparem como são as fãs da senhora. Uma cliente pegou na agenda e deu-me para pagar, perguntando: “Quanto custa?”. Eu disse que não custava nada, que era oferta do livro de previsões. “Então não quero.”. Ela estava disposta a pagar algum dinheiro só pela agenda. Por esse dinheiro, podia levar a agenda e o livro de previsões, mas não. Se eu tivesse dito que o livro das previsões é que era oferta, ela tinha levado a agenda toda contente. Picuinhas, estas viciadas em astrologia.
As crianças são realmente muito naturais em tudo o que fazem. Até a entrar de bicicleta pela livraria a dentro, ver o que têm a ver, dar meia volta e saírem, como se não fosse nada. Talvez tenha olhado para a farda e pensou que lhe podíamos arranjar gasolina. Inteligentes, os putos.
Bom Natal.

sexta-feira, novembro 17, 2006

A Como é Que Está o Litro?

Devido à grande quantidade de pedidos de algumas pessoas e dois ou três animais (um periquito e dois cães), venho deixar aqui mais uma pequena crónica do mundo dos livros em geral.
Antes de mais devo dizer que a minha ausência foi causada pelo excesso de trabalho daquela livraria infernal. Só temos, assim por alto, o triplo dos livros que deveríamos ter, mas isso é indiferente. Soma-se a isso uma baixa de dois ou três dias e mais entradas e saídas de pessoal do que no Benfica dos anos 90 e aí temos a razão da minha ausência.
Mas, já que voltei, tenho que contar umas coisas. A primeira situação prende-se com o facto de alguns clientes, neste caso uma cliente, fazerem o maior ar de entendido do mundo quando estão a falar dos assuntos sobre os quais não tem o mínimo conhecimento. Reparem, o facto de comprarem um livro sobre algo que desconhecem e querem passar a conhecer é altamente louvável e, seguramente, melhor do que comprarem e fingirem que já conhecem. Então a cliente vem para o balcão, com o seu ar todo entendido diz, do alto da sua sabedoria: "Queria o TÃO da Física, se faz favor." Lá está, não é o Tao da Física que ela quer, é o Tão! Isso do Tao é para o pessoal do Taoismo e tal, o Tão não, o tão é para os cultos. Pensei em recomendar-lhe o Tão da Sexualidade ou o Tão da Gestão, mas era conhecimento a mais...
Depois temos os já famosos grupos de amigas. Quanto mais novas, pior são. É muita hormona, muita excitação, alguém desligue a televisão na hora dos morangos, por favor. Reparem, primeiro foram umas raparigas que queriam livros do Mário de Sá-Carneiro, especialmente "o mais recente, qual é que saiu à pouco tempo?". Custou-me muito, quase tive que pedir ajuda, mas tive de dizer às raparigas que, infelizmente, o Mário de Sá-Carneiro já está morto assim há algumas dezenas de anos. A voz ainda tremeu, mas tinha de ser forte. Enfim, deveres do Livreiro. Relativamente ao outro grupo de amigas, cada uma queria um livro diferente, e iam saltando de trás umas das outras para a frente do balcão, a perguntarem tudo ao mesmo tempo. Pareciam aqueles bonecos que saltam de dentro das caixas, mas menos inteligentes. Depois, para além dos guinchos e dos berros, falavam todas ao mesmo tempo, aparecendo em cima dos ombros umas das outras, eu já estava a sentir alguma claustrofobia. Pior que elas só mesmo os clientes que se apoiam, com cotovelos e tudo, em cima dos livros que temos no balcão.
No extremo oposto do grupo de raparigas doidas, temos as senhoras de idade. Tive a oportunidade única de assistir a um encontro mítico em frente ao balcão. É daqueles momentos em que me apetece ir buscar um banco e um pacote de pipocas e ficar a apreciar o espectáculo. Então as senhoras, a propósito do livro "Os Amores de Salazar", estavam a discutir as várias paixões do mesmo Salazar, porque a prima de uma e a melhor amiga de outra tinham andado metidas com o próprio Salazar. Segundo uma delas, teria sido mesmo a prima dela que lhe tinha dado cabo da cabeça. E eu a pensar que tinha sido uma cadeira. Não devia ter faltado tanto a história. Depois tive o prazer de conhecer um sócio do ACP, casado com uma delas, que tinha o número de sócio abaixo do 100! Incrível. Consta que é sócio desde o tempo em que o ACP tratava de carroças.
Outra bela novidade é a chegada das fardas para os colaboradores da Livraria. Muito bonitas, são assim duma cor entre um bege e um castanho, com uma gola à Jorge Jesus, do tempo do Felgueiras, ou ainda à Eurico Gomes. Penso, aliás, tenho a certeza, que já vomitei coisas com melhor aspecto, cor e mesmo textura que aquela farda. Depois com a farda veio um pequeno manual que tivemos de assinar, tendo em conta o bom funcionamento da mesma. Não se pode fazer alterações. O que é pena porque estava a pensar em bordar um símbolo do SLB e por o número 21 nas costas, mas assim já não posso. Ai está outra boa comparação, é tão feia como o equipamento secundário do SLB. Depois, nem sequer é permitido dobrar as mangas. A única coisa que se pode usar por cima é o identificador. O meu fio de ouro com a minha foto vai ter de ficar para dentro, e o Gulbenkian vai ter de por os pêlos para dentro também. Também dizem que se tem de ter uma camisola suplente na loja. É compreensível, pois o Santo passa a vida a babar-se, ele não pode andar sem uma muda de roupa. É uma medida que se aplaude. Sinceramente, e sem menosprezar os trabalhadores da Galp pelo pais fora, parecemos uns trabalhadores de bomba de gasolina. Quando chega um cliente ao balcão não sei bem se hei de perguntar que livro quer ou se é para atestar.
Um bem-haja para todos os que pedem para eu escrever. E para todos os que precisam de gasolina. Aos que precisam de livros, comprem online. Até à próxima!

domingo, outubro 22, 2006

A Livraria No Centro Do Mundo

Esta loja vai sentir a falta do Mestre, esse mito da matemática moderna. Nem que seja só pelo facto de ele ser, na sua essência, um íman de clientes bizarros. Veja-se o caso da cliente que, quando se aproxima do balcão, a primeira coisa que diz é “Posso mandar uma SMS?”. Eu e o Mestre olhámos incrédulos um para o outro, perante tão invulgar pedido. A senhora continuou: “É que eu perdi-me do meu marido e queria mandar-lhe uma SMS a dizer para ir ter comigo ao carro…”. Explicámos que não tínhamos maneira de enviar uma SMS, mas que se quisesse ligar do nosso telefone, estaria à vontade. Lá pegou no telefone, ligou ao marido, que não estranhou o facto de a mulher estar a ligar dum número estranho. E lá seguiu, toda contente. O episódio em si encerra pouca importância. Agora, porquê sempre na livraria? Porquê aqui? Há centenas de lojas aqui à volta. Porque é que ligam sempre para nós quando querem saber se o Continente está aberto, se há sapatarias e se vendem todo o tipo de marcas ou anda se sabemos o telefone de alguma loja em especial? Porquê nós? Depois admiram-se que eu seja um solipsista confesso…
Há famílias manifestamente estranhas. Reparem no caso da mãe que vem com dois filhos para a livraria. Enquanto ela e a filha mais velha estão descansadas no balcão a tratar dos seus assuntos, o filho mais novo anda para a frente e para trás na loja, com um livro qualquer na mão, de braços esticados para a frente, enquanto soltava um som que é particularmente difícil de descrever. Seria qualquer coisa como um HHHHHMMMMMMMMMMMMMMM gutural, tipo o som de um zombie, mas bastante mais prolongado e mais alto. E então lá andava ele, HMMMMM para um lado, HMMMM para o outro, parecia que vivia num sofrimento imenso. Sempre que se cruzava com outra criança eu temia que ele dissesse “Brains…” e tentasse mordiscar o frágil crânio da outra criança. Depois, cada vez que passava por trás da mãe, esta dava-lhe, vou tentar dizer isto de uma forma educada e suave, uma carga de porrada. Basicamente era isto. E o petiz lá continuava, completamente zombificado, a andar para trás e para a frente, sem proferir qualquer palavra, apenas a gemer como se não houvesse amanhã. E pelo tamanho da mão e da violência da mãe, talvez não houvesse mesmo.
Há casos de clientes que frequentam muito a loja, quase diariamente, mas nunca levam nada. Pelo menos de forma oficial, entenda-se. Os erros de stock têm que surgir de algum lado. E num destes últimos dias, enquanto partilhava o espaço com o grande Gulbenkian (o que já se sabe que é propício a acontecimentos de índole estranha e inacreditável), um desses clientes que nunca compra (aliás, o maior mito desse tipo de clientes) aproximou-se do balcão para comprar. Um livro. Com dinheiro. Eu e o Gulbenkian aguardámos aquele momento com uma enorme ansiedade. O cliente aproximou-se e o Gulbenkian, mais rápido do que a própria sombra, lança um sonoro e bem disposto “Bom dia!” na direcção do cliente. Só que este desviou-se do bom dia, e respondeu com um cantarolar, assim uma espécie de zumbido de vários tons. Meu Deus, pensei eu, sempre julguei que o cliente cantante fosse um mito, como o mito do cliente bem disposto e simpático ou da cliente divorciada de 43 anos que tem problemas afectivos e corpo de 23 anos (mito que agrada, e de que maneira, ao colega Santo). Mas não, era real, ele estava ali, perante nós, a cantarolar. Pagou e em seguida foi-se embora, e nós ficámos a apreciar o momento histórico. Em seguida, nas nossas habituais discussões filosóficas (que abrangem tudo desde o existencialismo, passando pelos mais variados problemas económicos e sociais, bem como pela inclusão de Hilário no onze titular do Chelsea frente ao Barcelona), discutimos o que fariam aqueles clientes que se deslocam diariamente à loja e nada levam. O argumento do Gulbenkian deixou-me logo sem palavras. Ele, um proficiente estudante de filosofia, um verdadeiro humanista, preparou-se para dar a sua visão do assunto e eu, mero aprendiz, esperava ansiosamente pela sua sabedoria. “Secalhar são indecisos”, disse, sabiamente. E calou-se. Que domínio da condição humana, das razões psicológicas e sociais que levam pobres almas a visitar uma livraria diariamente sem nada comprarem. Obrigado, Gulbenkian, obrigado…É que além de aprender sobre a vida em geral, ainda aprendo línguas, como o espanhol. Foi uma honra ver o Gulbenkian dizer a uma cliente espanhola, quando esta estava com dificuldades no multibanco: “Por EL código, por EL código”. É o maior.

domingo, outubro 08, 2006

Sem Opinião

Isto de ser Livreiro tem que se lhe diga. Eu saio daqui homem, saio daqui preparado para a vida. O que é de espantar, tendo em conta que quando aqui entrei chamava-me Francisca Manuela. Reparem, muitas vezes estou eu descansado no balcão quando chegam clientes que dizem, com o ar mais desesperado do mundo, coisas como “Preciso de ajuda!”, “Estou perdida!” ou ainda “Pode ajudar-me?”. As frases, por si só, dizem pouco, mas o ar de desespero que as pessoas ostentam é algo digno de registo. Eu já disse uma vez, depois dessas frases espero sempre que digam que o seu filho foi raptado e eu tenho de o salvar ou algo do género. Mas não, geralmente querem, imagine-se, livros. É altamente enfadonho. Mas eu estou aqui para ajudar. Posso não saber onde está o Orgulho e Preconceito mas raios me partam se eu não salvo alguém das chamas. Um conselho, Sr. Sócrates, ponha uns livreiros no meio da floresta. Além de ajudarem nos fogos ainda podem orientar as pessoas perdidas.
Às vezes penso que a minha mente está a pregar-me partidas, de tal forma é surreal o cenário com que me deparo. Estava a atender uma cliente, concentrado no meu trabalho, vejo pelo canto do olho um vulto a ver livros na prateleira superior sem qualquer dificuldade. Fiquei espantado por ver alguém tão alto, especialmente por se tratar de uma senhora. Claro que quando olhei a segunda vez reparei que ela estava em cima da estante. Desviou os livros para o lado e para o chão e subiu para cima da estante. É tudo dela, basicamente. É sempre engraçado quando os clientes deixam a sua marca, mas uma pegada é ir longe demais amiga. Ela estava a ver os livros de esoterismo, se calhar queria chegar ao céu.
Por falar em esoterismo, uma cliente habitual, habitualmente chata, lá foi para a sua busca diária de livros esotéricos. De repente, começa a gritar: “ALGUÉM ME PODE AJUDAR?! ALGUÉM?!”. O meu colega Mestre (que, infelizmente, já partiu, e aproveito para desejar a melhor sorte no seu curso de matemática) dirigiu-se até lá, pensando que talvez a senhora estivesse a ser sugada por algum vortex para uma dimensão paralela. É comum na zona do esoterismo. Mas não. Ela apenas queria um livro da prateleira mais alta. É caso para berrar como se estivesse a morrer. O meu colega lá lhe deu o livro e voltou para o balcão. Eu tinha a sensação de que aquilo não ia ficar por ali. E não ficou. Ela volta a berrar, volta a chamar o meu colega. E qual era o seu problema desta vez? A senhora estava muito incomodada porque, e passo a citar, “Como é que é possível ver alguma coisa nesta prateleira? É que uns livros estão assim”, e aponta para a esquerda, “e outros estão assim” e aponta para a direita. As edições brasileiras por vezes têm, na lombada, a direcção da letra contrária à das edições portuguesas. A senhora estava profundamente indignada e altamente confusa. O mundo dela parecia estar prestes a desabar. Eu, aqui ao longe, observava atentamente o desenrolar da conversa. A senhora continuava a falar vigorosamente enquanto apontava ora para a esquerda ora para a direita. Lá veio para o balcão e pediu para embrulhar o livro, algo que fiz de forma irrepreensível. Mas a senhora não ficou contente. Veio com o temível pedido do laço, algo que tive de recusar porque simplesmente não temos. Ela ficou furiosa, e tentei explicar-lhe que o facto de termos ou não laço não depende de nós, meros livreiros. Eu apenas embrulho com o material que me dão. Ela ficou altamente irada e disse: “NÃO TEM LAÇO?” eu voltei a responder que não e diz ela: “E NÃO TEM OPINIÃO?”. Não, opinião não tenho, está esgotada no editor. Apesar de não ser pago para ter opinião, obviamente que tenho opinão. Até tenho opiniões a mais. Veja-se este blog. Mas a importância da minha opinião, tanto para o cliente como para a entidade empregadora anda assim a roçar o nulo. Mas pronto. Limitei-me a não responder e ela lá seguiu, furiosa. Não convém enervar uma cliente que não pára de comprar livros de esoterismo. A esta hora já tem um boneco de voodoo da minha pessoa.
Antes de partir, queria deixar aqui uma mensagem para os informáticos que fazem as bases de dados das livrarias. Além da pesquisa por tema, título, editora ou ISBN, sugiro que ponham um campo de pesquisa denominado COR. Isto porque, em 40% dos casos, o único dado que as pessoas sabem dar de um livro é a cor. Já foquei aqui várias vezes a problemática da cor amarela nos livros (algo que daria uma bela tese). Ainda hoje, uma cliente disse que não sabia quem era o autor ou qual era o título do livro, mas que era “assim a atirar para o roxo”. Com dados desta precisão só mesmo um livreiro de baixa qualidade é que não o localizam. O que foi, obviamente, o meu caso.

domingo, setembro 24, 2006

Mitos

Antes de passar à habitual e fastidiosa descrição dos mui extraordinários acontecimentos desta livraria do Portugal recôndito, tenho de dar (com um considerável atraso) os meus parabéns à Noiva de Portugal, que, por estas alturas, já é a Esposa de Portugal. É com agrado que vemos a Esposa de Portugal juntar-se ao clube dos casados. Consta que agora espalha o seu poder livreiro numa pequena arena desse Portugal (há rumores que dão conta que ela até já vende bilhetes de espectáculos, um tabu aqui nesta livraria) e que já usa bandarilhas como ninguém. Boa sorte e felicidades para os projectos futuros. E nada de sujar a carpete da loja.
Não há nada melhor do que começar a manhã, depois de uma chuvada torrencial e de filas intermináveis na Marginal, com uma torrente de insultos, queixas e reclamações de um cliente, por telefone. É bom, dizem que tem L-Casei qualquer coisa, e depois do telefonema sinto-me logo preparado para o resto do dia. Então o senhor, um suposto escritor, de longas barbas brancas e roupa do século XIX, ligou, exasperado, porque, às 10 horas e 20 minutos, ainda não lhe tínhamos ligado a avisar que o livro que tinha encomendado já tinha chegado. Ora, a loja tinha aberto à 20 minutos, era manifestamente cedo para este tipo de coisas. Claro que o facto de o livro vir directamente pelo vendedor, num favor especial para o nosso gerente (escapando assim a um mar de burocracia e tempo perdido), e de ter sido dito claramente ao cliente que poderia passar na livraria depois das 14, era completamente indiferente. Era às 10 e 20 que queria o livro, porque tinha que entregá-lo à hora de almoço. Como não tinha qualquer conhecimento do estado desta encomenda, pedi um segundo ao cliente e comecei a pesquisar na base de dados, para verificar se o dito livro tinha chegado. De repente, sem nada o fazer prever o cliente diz, irritado: “VOCÊ ESTÀ A VER NO COMPUTADOR?!”. Eu, incrédulo, olhei em volta a ver se localizava alguma câmara por onde pudesse estar a ser observado. Não posso com estes clientes omniscientes, já aquele habitual, Deus, é a mesma coisa. Com ele não erros de stock nem livros perdidos. “NÃO USE O COMPUTADOR, OBVIAMENTE QUE NÃO VAI ESTAR NO COMPUTADOR!”. Se calhar ele estava a referir-se a estar no computador fisicamente. Isso já era improvável. Atenção, improvável, não impossível. Já vi muita coisa por aqui…. Obviamente que se o livro já tivesse chegado já estaria na base de dados, foi o que expliquei ao cliente, e obtive a seguinte resposta: “SE ELE CHEGOU AGORA COMO É QUE PODE ESTAR NO COMPUTADOR?! NÃO SEI SE VEIO DA EDITORA OU DE UMA DELEGAÇÂO VOSSA, MAS NO COMPUTADOR NÃO ESTÁ CERTAMENTE!”. Tentei explicar ao cliente que assim que ele chegasse, nós ligaríamos a avisar. Mas foi basicamente o mesmo do que tentar explicar a um cão para não saltar à espinha da Tia Dolores quando esta passa lá em casa por ocasião do Natal. Voltaram os berros: “QUE INCOMPETENCIA! NÃO SE PODE DEPENDER DA EMPRESA, ÍNCOMPETENTES! SE SOUBESSE TINHA IDO EU A LISBOA!”. Lá está, o insulto fácil. Logo pela manhã. Disse ao cliente que o melhor, em situações de urgência, é o cliente ir mesmo à loja de origem, para não estar dependente de editores, estafetas, correios e livreiros em geral. São vários elos, é mais provável que algo corra mal. A reacção não se fez esperar: “QUE INFELICIDADE! QUE DECLARAÇÃO INFELIZ! AGORA É QUE DISSE TUDO, NÃO POSSO CONFIAR NA VOSSA INCOMPETENCIA!”. Sou, portanto, um infeliz, para além de ser responsável por diversas pessoas e entidades. Foi nesta altura que me despedi cordialmente, dizendo que assim que o livro chegasse nós o contactaríamos, para evitar quer tivesse de desejar ao senhor duras e longas sevícias ao som de Luís Represas. Gostei especialmente da parte em que ele mentia com todos (os quatro ou cinco) dentes que tem, quando dizia que lhe prometeram que o livro chegava de manhã, quando o próprio gerente lhe afiançou que a partir das 14 poderia vir buscar o livro, que, pasme-se chegou por volta das 11 tendo o cliente passado na loja por volta das 12. É sempre bom recebermos reclamações antes mesmo de as coisas correrem mal.
Por cada cliente mau há outro cliente mau. E de vez em quando há um bom. Ou menos mau, bom é raro. Estava acompanhado do Mestre (que nos abandonará em breve) no balcão, quando chega um cliente, envergando orgulhosamente uma camisola de treino do Benfica, do tempo do Camacho, que pergunta por enciclopédias automóveis. O Mestre indicou-lhe prontamente o local dos livros sobre automóveis, mas o cliente não se moveu: “Pois, esses eu já vi, e eu já tenho, mas é que esses livros têm dois ou três anos. Já saíram muitos modelos.” Eu e o mestre concordámos, como bons livreiros que somos, e reiterámos que eram mesmo só aqueles que tínhamos. “Eu queria assim um tipo enciclopédia, prontos, é que já saíram mais modelos nos últimos três anos.” Estava quase no ponto do adormecimento, devido à repetição incessante do pedido do cliente, quando este lança a seguinte pérola: “Prontos, eu quero assim um livro de A a Z, com os modelos desdes 1700 e tal, com os carros a vapor, até hoje em dia, com os carros a gasolina e tal.”. Ah, os famosos carros a vapor do Séc. XVIII. Muita gente pensava que isso era um mito, mas não. Tenho mesmo de arranjar uma enciclopédia dessas. .